Os professores de Educação Física Katia Bortolotti Marchi, 43 anos, e Wanderley Marchi Junior, 42, conheceram-se no trabalho. “É ruim. A gente passa o dia todo juntos e ainda leva os problemas do trabalho para casa. Por mais que tente se policiar, acaba falando”, reclama Katia.
Por duas vezes, ele foi chefe dela. “Ao contrário do que as pessoas pensam, eu não tinha muitas regalias, era mais exigida e até prejudicada. Ele nunca me escolhia para uma viagem e muitas coisas que eu poderia fazer não me eram passadas. Ele sempre falava ‘os outros vão pensar que escolhi você porque é minha mulher’.” Há dois meses, o casal não trabalha mais junto. “Ele saiu e a gente ficou com saudade um do outro, de ficar o tempo todo junto. Mas ficou melhor, hoje a gente até conversa de trabalho, mas ele fala do dele, eu do meu.”
Para o consultor, escritor e palestrante motivacional Paulo Araújo, com a maior participação da mulher no mercado de trabalho e aumento da carga horária, fica quase impossível não haver um relacionamento amoroso entre colegas. “Tem gente que brinca dizendo que empresa é um ótimo lugar para arranjar marido ou esposa”, diz.
Para ambas as relações – profissional e amorosa – darem certo, o casal precisa saber separar esses dois momentos da sua vida. “O mais difícil é não misturar as coisas e entender que existe hora para tudo e que o ambiente de trabalho não é o lugar adequado para a discussão de assuntos muito pessoais”, lembra Araújo.
“Levar questões da vida familiar para o trabalho, no mínimo, é imaturidade. O que tem a secretária a ver com o filho adolescente ou a mulher que gastou demais?”, indaga a psicoterapeuta familiar Cleia O. Cunha.
Ela alerta também para o movimento inverso: “O mundo do trabalho também não pode entrar nas relações afetivas, familiares. A pessoa passa a trabalhar 24 horas”. O trabalho, claro, é importante – “é onde me reconheço e sou reconhecido” –, mas não dá para transformá-lo no único interesse da vida. “Hoje as pessoas vivem demais esse mundo”, observa.
Conseguir preservar os espaços e resolver os problemas no local e hora certos, para Cleia, é um exercício, que demanda prática e persistência.
“O segredo é um não interferir na área do outro”, garante o empresário Mirko Fonzaghi, 58 anos, que há 28 trabalha com a esposa Silvana, 51, em uma empresa de venda direta. “Ao longo do tempo fomos descobrindo nossas aptidões e cada um atua onde é melhor. A gente se completa”, conta Silvana.
Nem sempre as coisas foram assim. “A gente aprende com os erros. Antes, havia uma cobrança do tipo ‘eu te disse’. Agora damos ao outro a chance de se desenvolver, de ousar”, diz ela. Outro ponto destacado pelo casal é o fato do dinheiro ser de ambos. “Não tem o meu ou o seu, é nosso. Já vimos em outros casais que isso é uma coisa que pega”, lembra o empresário. A parceria deu tão certo – nos negócios e no amor – que os dois ainda jogam tênis e fazem musculação juntos.
E, acima de tudo recomendam o que tem de sobra entre eles: reconhecimento. “É a mola propulsora das pessoas, o estímulo para continuar”, diz Silvana. “Tem de reconhecer o parceiro”, concorda Mirko.
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