larissa@gazetadopovo.com.br
A maior parte das mulheres que já passou por um episódio de violência doméstica sofre sucessivas agressões, calada. Pior: pode estar alimentando um perverso ciclo de violência esperando que o companheiro a quem dedicou seu amor se arrependa e volte a ser o mesmo de antes. Cerca de 360 mulheres vão até a Delegacia da Mulher todo mês em Curitiba para registrar ocorrência contra seus companheiros. São poucas perto das estimativas de seis espancadas em casa todos os dias. A média nacional é ainda mais assustadora e aponta que a cada 15 segundos uma mulher sofre algum tipo de violência no Brasil. O drama é silencioso, geralmente as vítimas não denunciam seus agressores. Eles agem como se tivessem direito de fazer com elas o que querem – afinal a sociedade faz vistas grossas e até canta um funk cujo refrão diz “um tapinha não dói”.
O orientador pessoal norte-americano Roberto Bo Goldkorn diz em seu livro Dormindo com o Inimigo (Bertrand) que esta é uma questão cultural. “Das culturas mais primitivas às civilizações mais avançadas, com raríssimas exceções, a mulher é vista como acessório na vida do homem e sua refém absoluta. Nas ilhas Fiji, por exemplo, na cerimônia nupcial os futuros maridos ouviam dos pais da noiva o seguinte discurso: ‘Aqui está a minha filha que eu vos dou. É propriedade vossa. Podeis fazer dela o que quiseres. Espero que ela vos dê muitos filhos, que serão guerreiros e chefes poderosos como seu pai. Mas, se, pelo contrário, vos aborreceres dela, vendei-a, matai-a, comei-a: vós sois o seu dono absoluto.’”
Selvageria parecida com as cenas vistas em um plantão de delegacia, após um espancamento ou coisa parecida, violência que não escolhe classe social, grau de escolaridade, credo ou origem. “A mão que bate é a mesma na classe baixa, na média e na alta. A boca que xinga também. São as mesmas palavras. A violência é igual. A diferença é que a parede do pobre é mais fina e que o rico pode mandar a mulher para o exterior para esperar que as marcas desapareçam”, comenta Darli Rafael, delegada titular da Delegacia da Mulher de Curitiba.
Diferente do que diz o dito popular, tapa de amor dói e traz junto humilhação, desafeto, ameaças, relações sexuais não consentidas e xingamentos descritos nos relatos das agredidas. A delegada comenta que boa parte dessas mulheres está com a vida desmantelada, muitas vezes distantes da família – ou sem o apoio da própria –, dos amigos, sem uma profissão, com a auto-estima baixa, dependente financeiramente. “Elas chegam aqui movidas por um fio de coragem para romper com toda essa violência. E geralmente querem resolver toda a sua vida de frustrações em meia hora. Ela quer que ele volte a ser o homem pelo qual se apaixonou, que volte a gostar dela, não bata mais e que, de preferência, não saiba sobre a denúncia, não seja chamado, não sofra nenhuma conseqüência. Tudo num passe de mágica.”
Um misto de sentimento de responsabilidade, medo e ilusão mantêm a mulher atrelada à relação. “Ela vem com uma idéia desde o berço de que deve ser mediadora, que é forte o suficiente para dar a volta por cima e resolver os problemas, modificar o marido. Mas ninguém manda em ninguém, ninguém muda a não ser por sua livre e espontânea vontade. Mas ela vive essa ilusão e acaba construindo uma vida de opressão e violência”, diz Darli.
Colunistas
Agenda
Animal


