Comportamento

O nome da vez

Adriano Justino
07/09/2008 03:00
No tempo dos nossos pais e avós, a escolha do nome era influenciada pela religião, pela família, pelas artes e até pela política (no tempo dos grandes heróis nacionais). O significado dos nomes também era levado a sério, e os dicionários de nomes eram bem utilizados. Hoje, existem ínúmeras possibilidades e é a mídia que mais contribui para essa escolha. A origem e o significado é o que menos preocupam os pais.
Nos últimos 20 anos, a tendência no Brasil foi de se apropriar dos nomes estrangeiros e incrementá-los com muitos y, k, w e letras duplas. As grafias eram as mais variadas. Michael se transformou em Maicon, Jennifer, em Dienifer, Maureen, em Maurren (caso da nossa campeã olímpica) e por aí vai. Mas ultimamente parece haver um movimento – principalmente em segmentos sociais com mais escolaridade – que volta a valorizar os nomes regionais.
De Leblon a Hollywood
No Rio de Janeiro, existe a expressão “nomes do Leblon”, que se refere a essa tendência bastante nítida entre os moradores desse bairro de classe média-alta, onde também vivem muitos artistas, de batizar os filhos com prenomes antigos e sem rebuscamento.
Entre os exemplos mais comentados pela mídia, os filhos dos apresentadores Angélica e Luciano Huck que se chamam Joaquim e Benício, e os gêmeos dos atores Rodrigo Hilbert e Fernanda Lima, batizados de Francisco e João. Sem falar em Antônia, filha da atriz Camila Pitanga, e Antônio, o filho de Fernanda Torres e do cineasta Andrucha Waddington.
Se estes nomes fazem sucesso entre estrelas globais, devem se espalhar naturalmente para outras classes sociais.
Já nos Estados Unidos, a tendência das celebridades é complicar. Os moradores de Hollywood e arredores têm sido responsáveis pelos nomes mais originais dos últimos tempos, entre eles Apple (maçã), filha de Gwyneth Paltrow e do músico Chris Martin; Brooklyn (um bairro de Nova Iorque), filho de David e Victoria Beckham); Everly Bear, filha do vocalista Anthony Kieds e Racer (corredor), filho do diretor Robert Rodriguez.
Entre os mais estranhos destacam-se Kal-El, nome do filho de Nicolas Cage e escolhido porque o ator é fã do Super Homem; Pilot Inspektor (inspetor de pilotos), escolhido para batizar o filho do ator Jason Lee, que se inspirou em uma música da banda Grandaddy; e Audio Science (algo como ciência auditiva), como é chamado o filho da atriz Shannen Sossamon.
Os mais populares
De acordo com a enfermeira Silvana Frisanco Davila, da maternidade do Hospital Nossa Senhora das Graças, Gabriela é um dos nomes mais populares dali. E um dos mais presentes no ranking do Viver Bem, montado a partir de uma consulta com enfermeiras, professoras e cartorários da cidade.
Foi este o nome escolhido pela pediatra Cristina Alves Cardoso, 34 anos, e pelo engenheiro civil Fernando Almeida de Souza, 31, para dar à filha, que nasceu há pouco mais de uma semana. “Estávamos em dúvida entre Letícia, Carolina, Laura e Gabriela. Escolhemos estes nomes por causa da sonoridade. A segunda etapa foi descobrir o significado e a origem de cada um deles e achamos Gabriela mais bonito, pois significa ‘enviada de Deus’”, explica a mãe.
Há alguns anos, o nome Enzo tinha virado um verdadeiro coqueluche e maternidades e pré-escolas. “Por muito tempo, Enzo era tão comum quanto José”, conta a pedagoga do Colégio Nossa Senhora de Sion, Kátia Beltrami. A auxiliar de enfermagem do Hospital Nossa Senhora das Graças, Danielle Opazo, confirma a força da tendência: “às vezes tínhamos três ou quatro Enzos na maternidade de uma vez só”, lembra.
Hoje, parece que a febre passou. Prova disso é que desde janeiro deste ano, apenas um Enzo foi registrado na Clínica e Maternidade Mater Dei. Mas ainda existem muitos fãs do nome por aí.
Enzo, nome de origem italiana que significa “príncipe”, foi escolhido pelo funcionário público Anderson Folador, 32 anos, e pela nutricionista Marcela, 26, para dar ao filho que nasceu no dia em que visitamos a família. “Houve uma votação em família. Estávamos indecisos entre Enzo, Cauã e Pietro. Foi escolhido Enzo por ser um nome forte e bonito”, conta a mãe, que ouviu o nome pela primeira vez quando a atriz Cláudia Raia batizou o seu filho, em 1997.
A importância do nome
O francês Nicolas Guéguen, doutor em Psicologia Social, acredita que os nomes e sobrenomes influenciam o nosso comportamento e o modo como nos percebemos e que os outros nos percebem.
Em seu livro 100 Pequenas Experiências de Psicologia dos Nomes Para Compreender Melhor Como Eles Afetam sua Vida (sem tradução no Brasil), Guéguenreuniu os resultados de várias pesquisas americanas, além das experiências que eles mesmo realizou. Em entrevista ao jornal Le Monde, ele afirmou que “os nomes são os elementos mais intimamente, mais precocemente e mais duradouramente ligados à nossa pessoa. Eles participam da construção de nossa identidade.”
O autor descobriu, por exemplo, que nomes que nos são mais familiares, são mais simpáticos. Ou seja, somos mais tentados a ajudar as pessoas que têm nomes mais comuns. Ele também descobriu que o grau de apreciação do nome e do sobrenome tem um impacto direto sobre o nosso nível de auto-estima. “A beleza de um prenome afeta a avaliação da atração física de uma pessoa”, revela.