“Fui moldado a ferro e bigorna, a frio. Tive de amadurecer a passos gigantes.” As frases do empresário Canaití Bejarano, 34 anos, passam a noção da responsabilidade que o homem sente ante a paternidade. “Dá uma insegurança, um frio na barriga”, conta com sua voz forte e postura confiante.
Responsabilidade, aliás, foi o tema preferido pelo pai de Aruä, 9 anos, durante a conversa sobre o papel do pai atual. Além dela, educação, coragem, cavalheirismo, humildade e generosidade são as heranças que Canaití deseja deixar para Aruä, valores “que hoje estão passando batido”.
O empresário teve em casa o exemplo do pai presente. “Ele dedicou muito tempo pra gente, mesmo tendo muito trabalho. Nos educou com mãos de ferro, mas ao mesmo tempo era muito carinhoso. Acho que isso se perdeu hoje em dia. Tento reproduzir isso, ser amigo do meu filho, mas sem perder a autoridade de pai.”
Pode parecer incompatível aliar o papel de cuidador ao de autoridade, e não é mesmo fácil. Mas é o caminho apontado pela doutora em Psicologia Rosa Mariotto para esse novo pai. “Ele pode trocar fralda, ajudar na lição, levar para a escola, mas deve continuar exercendo a função de autoridade. Pai é aquele que não pode não proibir. O que não significa que tem de ser um pai que não participe”, diz.
A psicóloga reconhece que não é fácil. “Angustia, porque os homens querem saber como ser bons pais. E vão se confrontar no cotidiano com o fato de que não existe uma receita.”
Pode não haver fórmula única, mas há ingredientes que facilitam essa relação. “Antes de mais nada, para ser bom pai é preciso desejar ser pai daquele filho. E saber que o exercício da paternidade apresenta falhas”, diz Rosa.
E, novamente, a autoridade. “É necessário exercer a função de lei e não se acanhar em relação a isso. A autoridade é o que de mais precioso um pai pode transmitir ao seu filho. Quando ele diz não, há um reflexo na vida da criança e em sua própria. No momento em que ele proíbe, delimita, mostra para o filho que ele também tem seus limites, também está submetido a uma lei maior.”
Para a psicóloga Samanta F. B. da Rocha, a mão firme do pai garante que a criança tenha bons valores e seja independente. “Os valores, o certo e o errado vêm embutidos nessa figura paterna.”
É a velha história: endurecer sem perder a ternura. Grande oportunidade para os homens, aliás. “Essa necessidade moderna de divisão de tarefas permite a eles se aproximar mais dos filhos, viver a paternidade de forma mais integral”, diz Samanta.
Oportunidade aproveitada por Canaití. Pelo menos é o que se deduz da segurança de Aruä: “Ele brinca um monte comigo, me dá bastante atenção. E, como ele trabalha até mais tarde, sempre me dá um beijo e um abraço na cama. Às vezes eu nem percebo, mas sei que ele faz isso”.
erikab@gazetadopovo.com.br
Serviço: Rosa Mariotto (doutora em Psicologia, professora da PUCPR), fone (41) 3324-2432 / Samanta F. B. da Rocha (psicóloga), fones 3028-8540 (Hospital Ecoville) e 3029-9540 (Instituto Habilittare).
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