Comportamento

Páscoa: a vitória sobre a morte

Frei Clodovis Maria Boff, professor de Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR)
31/03/2013 03:11
A “festa magna da cristandade” não é o Natal, como se propala, mas a Páscoa. Trata-se de uma festa que não tem paralelo em nenhuma outra religião. O que se celebra com a ressurreição de Cristo é a glória do corpo humano, enfim vitorioso sobre a morte. De fato, entre os fundadores de religião, só Cristo ressuscitou e continua vivo, em corpo e alma. Buda morreu, assim como Maomé, Confúcio, Lao Tse e todos os demais. O que ficou deles foi sua doutrina e seu exemplo. Quanto a seus corpos, ficaram apenas, como se diz, os “restos mortais”. Com Cristo não aconteceu o mesmo. Ele morreu, mas, como proclama o Credo apostólico, “ressuscitou ao terceiro dia”.
Que significa isso? Que com a páscoa de Jesus, a morte, até então invencível, foi finalmente vencida. E ela será vencida também por aqueles que se associam a Cristo pela fé. Assim confessa o credo cristão: “Creio na ressurreição da carne”. Quer dizer, com a ressurreição, é o próprio corpo humano que volta à vida, mas não à vida anterior. Isso, mais que ressurreição, seria uma reviviscência, como aconteceu com Lázaro. Não; o que aconteceu com Cristo e vai acontecer conosco é, antes, passagem para uma vida superior e plena.
Portanto, com a ressurreição, é o homem inteiro, corpo e alma, que é refeito, salvo e glorificado. Não existe nenhuma religião que atribua ao corpo um destino tão alto e, por isso, uma dignidade maior. O Oriente tende a exaltar o espírito, em detrimento do corpo. O Ocidente tende a exaltar o corpo, com desprezo do espírito. O Cristianismo, fazendo uma síntese dos dois, exalta o homem por inteiro, em corpo e alma. Para ele, o homem é um corpo espiritualizado ou um espírito encarnado. E é como conjunto de corpo e alma que o homem se realiza e se salva.
Mas como é que fica o corpo ressuscitado? Continuará sendo um corpo verdadeiro, concreto, real, mas numa condição nova e livre, e não mais na condição atual, limitada ao espaço e ao tempo. Mas como será concretamente o corpo ressuscitado? Partindo de um texto de S. Paulo (1Cor 15,35-50), a teologia atribui ao corpo ressuscitado quatro qualidades. É, em primeiro lugar, um corpo “impassível”, isto é, um corpo que não sofre, não envelhece nem morre. Depois, é um corpo “glorioso”, belíssimo, brilhando como Jesus, transfigurado no Tabor. Em seguida, é um corpo “ágil”, mais veloz que a luz, podendo estar lá onde estiver sua mente e seu desejo. Por fim, é um corpo “sutil”, totalmente espiritualizado, isto é, todo penetrado pelas forças do espírito e sob seu comando. É, em resumo, o corpo que gostaríamos de ter, obediente aos nossos desejos mais altos.
A Ressurreição, mais que uma doutrina, é um evento. É o evento mais decisivo da história do mundo. Vencendo a morte, em todos os seus sentidos, o Ressuscitado funda e garante o sentido da vida e do mundo. Esse sentido se chama: vida eterna e bem-aventurada. Existe mensagem mais maravilhosa?
*Frei Clodovis Maria Boff é frade da Ordem dos Servos de Maria e professor de Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Tem graduação em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Mogi das Cruzes e doutorado em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica.