Mas antes convém destrinchar esse conceito: qual a diferença entre independência e auto-suficiência? Ser independente é ser isolado? Existe autonomia absoluta? Se você sonha com o dia em que não dependerá mais de nada ou de ninguém, pode tirar o cavalinho da chuva. Como diria o Padre Quevedo, a independência total NO EXISTE! “Não tenho condição nenhuma de alcançar a independência absoluta porque a natureza humana é a de se inserir numa sociedade”, diz o professor de Filosofia e Semiótica Antônio Santos Neto, da PUCPR. “É preciso levar em conta que a individualidade não é sinônimo de autonomia, mas composta dela. Ou seja, a gente não tem a independência, não parte dela, mas se movimenta em sua direção, tenta ser independente. E acho que tem de ser assim, ela precisa estar sempre em construção”, observa. “Caso contrário, estaríamos caminhando para uma sociedade-indivíduo. E nossa miséria humana se dá justamente porque resolvemos ser apenas indivíduo.”
Santos Neto também desconstrói alguns exemplos sedimentados de independência. “Um jovem que sai da casa dos pais para morar sozinho não é necessariamente independente. Essa é apenas uma forma de se comportar, e ela se realiza na vida pública (ou em sociedade)”, destaca, para sacar outras situações: “A gente vê meninos de três ou quatro anos jogando futebol na Avenida das Torres em plena hora do rush e pode achar que eles são livres, que fazem o que querem na hora e no lugar que desejam. Mas é o contrário, eles estão presos à sua condição. Ou uma pessoa que tem autonomia financeira também pode estar aprisionada às suas vontades e ao seu desejo de consumo.”
Vôo solo
Em plena era dos “adultescentes”, a jovem engenheira Joanna Sperandio Nisurelli, 25 anos, conseguiu a proeza de chocar os pais e os amigos de uma tacada só: quando encasquetou de ir morar sozinha, fato que deve se consumar nos próximos dias. “Mas por quê?”, perguntaram os pais, já imaginando que a “culpa” era deles. “Por quê?”, repetiram os amigos, para quem o perrengue de viver sozinha nessa idade só se justificaria se ela fosse estudar em outra cidade, se tivesse brigado feio com os pais ou se estivesse pensando em “juntar as escovas de dentes”.
NDA, nenhuma das anteriores: “Há algum tempo eu já pensava em sair de casa, ter o meu canto. E agora tive a oportunidade”, explica. “Chega uma altura em que o seu modo de vida ou seus pontos de vista ficam muito diferentes, para não dizer conflitantes, com os dos seus pais.”
Joanna também diz estar consciente do outro lado da moeda, de que terá de abrir mão da comidinha na mesa e da roupa lavada para ter sua própria casa. Sem falar nas contas, na limpeza…“Mas acho que compensa”, reitera. E ainda garante que não vai se sentir sozinha: “Minha vida é tão corrida, trabalho o dia inteiro, tenho tantas coisas para preencher o meu tempo que só vou ficar sozinha mesmo na hora de dormir.”
E os pais e amigos, já se recuperaram do susto? “Eu conversei com eles, disse que precisava começar a minha vida, que era melhor investir num imóvel do que gastar o dinheiro à toa, aí eles compreenderam e me apoiaram. Meu padrasto até comprou o apartamento, mas eu vou pagar tudo para ele. E minha mãe me ajudou a escolher as coisas”, conta.
Colunistas
Agenda
Animal


