Comportamento

Sua majestade, a dirce

Adriano Justino
22/04/2007 23:47
Se usa topete é patricinha, se tem carro do ano é mauricinho, se pisou na bola é mané e se manuseia com propriedade duas agulhas de tricô é dirce. Caso seja um rapaz, então é dirceu. E não adianta recorrer ao dicionário para tentar encontrar uma razão semântica que justifique o termo. Quem inventou – e a essa altura não se sabe mais quem foi o autor do “batismo” – considerou dirce um nome “antigo” e, por isso, uma boa alternativa para denominar os novos reis e rainhas do lar. De diferente dos de tempos atrás, as dirces e dirceus têm a independência. São contemporâneos, urbanos, descolados e, ainda por cima, adoram prendas domésticas.
Assim, moderno passa a ser fritar bolinhos de chuva para o lanche da tarde, fazer sozinho as peças de crochê que estão na moda, dar a sua cara à cada cantinho da casa, trocar receitas com as amigas. “Num primeiro momento vem o protesto e a idéia de ir contra aos estereótipos dos papéis femininos e masculinos. Não é um retorno ao tempo das vovós, mas um resgate romântico das toalhinhas de crochê e dos livros de receita de família. Isso me lembra um pouco os hippies, que, no caminho contrário, viraram os executivos de cabelos compridos depois”, comenta a psicoterapeuta de família e casais Eneida Ludgero. Quando se tem 20 anos, segundo ela, falta maturidade para assumir do que se gosta e há a preocupação de ser parte de um grupo. Com o tempo e a definição da identidade, percebe-se que a diferença não é ruim, que cada um pode escolher seu próprio caminho. “E o grupo vira um grupo de apoio.”
Quando tinha 20 e poucos anos, a atriz Inês Gutierrez, 36, foi parar no divã para tentar definir se queria ser mãe e dona-de-casa ou profissional de sucesso. “Sofria enquanto achava que essas duas vidas eram incompatíveis. Até que o meu terapeuta disse que eu poderia ser as duas coisas”, conta aliviada. Por essas e outras resolveu ser mãe e, para curtir o pequeno João Vítor em casa, optou por fazer trufas para vender, viver com a mãe, passar as roupas do jeito que gosta e arrumar a cama até que os níqueis saltassem sobre ela. De onde veio esse ímpeto? “Ainda menina eu já mexia na cozinha, mas minha mãe me tocava de lá. Quando fui para a publicidade, acabei fazendo aquelas receitas fake para serem fotografadas. Tirava dos livros receitas para os comerciais e outras para experimentar em casa”, diz.
Essa mistura, segundo ela, a mantém viva: trabalhar às vezes até de madrugada, sair para a balada de vez em quando, trazer trabalho pra casa, curtir o filho, ir aos encontros mensais da família e aprender com alguma das tias uma receita imperdível (para depois ser experimentada na prática em casa). “Não vivo sem esses dois lados. Sou dirce total”, brinca Inês, que já avisa que se alguém aparecer em casa de repente, não sai sem experimentar pelo menos um pãozinho de queijo feito por ela…
A ciência explica
Conforme o neurologista e psicoterapeuta Mário Negrão, três mecanismos da natureza humana são disparados a partir das atividades caseiras. O primeiro deles é que essas atividades acalmam, trazem o foco para as mãos e a mente fica liberada da ansiedade. Em seguida se estabelece um reforço da individualidade: “As pessoas no mundo moderno são menos reconhecidas pelo que são, mais pelo que têm. Para ser, precisam marcar a individualidade com tarefas específicas, estabelecer essa marca e ser destacados do todo como alguém que faz cachecóis caprichados ou por cozinhar ostras divinamente”, diz. E, por último, há ainda o “desengessamento” dos papéis masculinos e femininos.