Comportamento
Curitiba tem duas famas. A de cidade modelo de planejamento urbano, ecológica, limpa e que carrega o apelido (irônico para alguns) de “cidade sorriso”. E a dos seus habitantes, vistos como gente arredia, ressabiada e que de sorridente não tem muita coisa.
Talvez, o curitibano famoso que mais se enquadre nessa mitologia seja o escritor Dalton Trevisan, que não gosta de ser reconhecido, muito menos de posar para fotografias ou conceder entrevistas. De suas andanças pelas ruas do centro, tira matéria-prima para criar vampiros e polaquinhas.
Mas seriam mesmo assim os curitibanos? É possível reduzir um povo a um estereótipo? E a quantas anda essa “fama de fechado” com a vinda de gente de outras partes do Brasil e de outros países? Do total de 3,1 milhões de habitantes da grande Curitiba, 1,5 milhão de pessoas nasceram em outros municípios, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD) de 2011.
Não faltam explicações divertidas para as peculiaridades dos nativos da capital. O artista Hélio Leites, no livro Curitibocas – Diálogos Urbanos (editora Coração Brasil, 280 páginas, R$ 5,60 no site Sebo do Messias) diz que a culpa é da câmara de vereadores que, no começo do século passado, proibiu a batucada. “Isso matou o carnaval, uma das principais características da extroversão brasileira”, conta o co-autor do livro, João Varella.
Há quem diga que o jeitão reservado pode ter origens na época em que a cidade era rota dos tropeiros. “Os homens escondiam suas filhas e esposas em uma atitude protetora comum aos locais onde há trocas comerciais”, conta Márcio de Oliveira, professor de Sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Também se atribuem tais modos à imigração europeia ocorrida ao longo do século 19. O maior grupo a se instalar aqui foram os poloneses, que vieram do campo e que viviam fechados em suas comunidades, seja por causa das barreiras da língua, das diferenças religiosas ou da distância geográfica. “São características de pessoas mais reservadas. E os alemães que vieram para cá também não eram expansivos”, conta Oliveira. “Até os anos 1950,1960, os casamentos ainda eram, em sua maioria, intracomunitários.”
Vinte anos depois, a crise cafeeira começou a atrair pessoas do interior do Estado e de pequenas cidades de São Paulo e Santa Catarina à capital. Esses novos moradores acabaram se contaminando pelos modos de ser da cidade pela socialização na escola e nos ambientes de trabalho – eram os “neocuritibanos”. “Somente com a vinda das empresas de fora é que se criam novos espaços não tradicionais de socialização, e isso obriga a população a se abrir, se dinamizar”, explica Oliveira.
“Generalizar é falso”
Diante de tal miscelânea populacional, hoje fica difícil identificar o curitibano padrão. “Generalizar é falso”, considera o professor. Curitibanos “da gema” e “neocuritibanos” têm em comum o fato de serem hoje cidadãos modernos e, ao mesmo tempo, vaidosos de sua cidade. “Houve um padrão administrativo que levou a cidade a funcionar e isso criou uma atitude reflexa da população, que também cuida mais do espaço público. Isso gera autoestima como cidadão, que é algo que o brasileiro perdeu”, diz Oliveira.
Hoje as pessoas circulam mais pela cidade, saem de suas ilhas e convivem com o diferente. “É claro que ainda se veem pequenos grupos que se conhecem há muito tempo, cujas famílias estão entrelaçadas, estudaram juntas. Mas, há bastante tempo, Curitiba é uma colcha de retalhos”, lembra a professora de História da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Maria Cecília Pilla.
Mas o curitibano da caricatura, do estereótipo, ainda se mantém vivo no imaginário popular. O ator e músico curitibano Alexandre Nero, que vive entre Rio e São Paulo, concorda com a afirmação de que nada pode ser generalizado. “Mas gosto da ideia de um ‘ser curitibano’ quieto, na minha, o que muitas vezes é confundido com antipatia e mau-humor.” Quando diz que é de Curitiba, ele conta que costuma ser recepcionado com outro folclore, o da “cidade modelo” ou “cidade europeia”. Um paradoxo, no mínimo, divertido. “A cidade é perfeita, mas o curitibano não. Como pode ser isso?”, brinca Maria Cecília.
Curitibana que abre a casa
A empresária curitibana Angela Beatriz Grein Loures Bueno, 51 anos, é tão apegada às suas raízes que, há alguns anos, herdou a casa onde viveu seu bisavô, o renomado educador paranaense Lysimaco Ferreira da Costa. No casarão de 1870, onde mora com a família entre móveis, louças e retratos de seus antepassados, ela mantém a tradição de deixar a casa aberta para amigos e parentes. Exatamente como faziam suas 11 tias-avós que viveram ali. Assumiu até mesmo a organização da festa de Natal – e, para preparar os quitutes da ceia, reuniu em livro as receitas da avó. “Ser curitibano é dar importância aos vínculos. É por isso que perguntamos ‘Você é filho de quem?’, porque vivemos muito atrelados aos grupos. Sinto que as pessoas começam a resgatar novamente essas referências”, diz.
Angela não tira razão de quem acha o curitibano formal, reservado. “Me considero uma exceção à regra, pois tive uma educação voltada para o convívio.” Mas, cita qualidades dos locais como a extrema fidelidade. “O curitibano é rigoroso em suas escolhas e, por isso, vai sempre ao mesmo salão de beleza, sapateiro, restaurante”, diz ela, que cultiva clientes fiéis na empresa de investimento onde atua há 20 anos – alguns até se tornaram amigos. “O trabalho em Curitiba ainda é personalizado. Se mudar o gerente do banco em São Paulo, as pessoas nem se importam. O curitibano, por outro lado, quando bem conquistado, fideliza, se apega na pessoa.”
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