“A pergunta é absurda? Não, não é. A vida é limitada, e, em alguns casos, o tempo que nos resta pode ser até menor que um mês – um acidente fatal, uma bala perdida… A consciência da finitude é, portanto, inevitável e cabe a cada um decidir se ela será angustiante, se será consoladora ou se será angustiante e consoladora a um tempo. Útil, certamente é, sobretudo por causa da palavra ‘consciência’: dela depende nossa humanidade. Quanto mais consciência tivermos, melhor.
Agora, o que fazer diante do fim próximo? Isto depende, claro, da pessoa. Uma pessoa religiosa dedicará esse tempo preparando-se para a vida futura que, certamente espera, será gloriosa e compensadora. Mas mesmo os que não praticam religiões acreditam em algo. E a resposta aí se impõe: dedicar a energia que resta a estes objetivos. Um escritor, por exemplo, pensaria em sua derradeira obra. Um pesquisador na ciência buscaria, no laboratório, a solução para um problema que o perseguiu durante a vida toda. Uma pessoa que ama a jardinagem prepararia um jardim espetacular. Agora: é claro que um escritor sempre escreve, que um pesquisador sempre pesquisa e que jardinagem é uma atividade mais ou menos constante. Trata-se apenas de incrementar esforços, de aumentar a dedicação. O que tem uma grande vantagem: alivia a ansiedade existencial que, nessa situação, certamente seria insuportável. Isto, em termo de ‘fazer’.
Mas existe um outro aspecto, que é o ‘sentir’. Sentir afeto, sobretudo. Em grande parte existimos nos outros. Ora, um mês é mais que suficiente para reafirmar afetos e para corrigir erros afetivos que possamos ter cometido.
E que tal o ‘come e bebe, porque amanhã morrerás’? Não recomendo. Não recomendo como médico, não recomendo como abstêmio, não recomendo como pessoa. Encher-se de comida e de bebida só vai fazer o cara se sentir mal. Uma festa com os familiares, com os amigos, tudo bem. Um derradeiro brinde à vida, tudo bem. Podemos até dizer ‘Saúde!’ Será irônico, mas não é mau morrer com um sorriso irônico.”
Moacyr Scliar é médico e escritor.
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