E para me arrumar? No banho, não deu para lavar os cabelos, pois todos os produtos eram embalados em plástico. Maquiagem, nem pensar. Até encontrei um blush em caixa de papelão, mas que pincel eu usaria para passar? Sairia de cara lavada e olheiras de preocupação. Para a roupa, só fibras naturais como couro, lã, algodão e seda. Tecidos sintéticos, como poliéster e poliamida, estavam vetados. Tudo bem que eu não gosto muito desses materiais, mas, ao procurar um casaco de inverno, não achei um que não tivesse forro de poliéster. E lá foi a terceira falha, porque fazia um superfrio e não me atrevi a ficar sem casaco.
Saí para trabalhar com a carteira vazia, sem os cartões plásticos. Me deparei então com o dilema do transporte – todos os meios (carros, bicicletas, patins…) levam plástico em várias partes. Como moro longe do trabalho, optei pelo ônibus, mas não me sentei nas cadeiras plásticas – promessa é promessa!
No trabalho, além de colegas apontando falhas em minha empreitada (“Seus óculos têm plástico!” “E esse esmalte nas unhas?”), não podia me locomover direito, pois havia plástico por todos os lados: cadeira, computador, telefone. Frustração total. A solução foi lápis e caderno, mas não rendeu e acabei entediada.
O tédio trouxe fome e, na hora do almoço, quase relaxei porque achei que não teria mais problemas: o prato era de louça; o copo, de vidro e os talheres de aço. Só não peguei bandeja. Mas quando vi, meu guardanapo veio embalado em plástico (tive que usar, falha número quatro!). A amiga que almoçava comigo me contou que esse acondicionamento de guardanapo em saco plástico se trata de uma medida obrigatória por uma lei estadual aprovada em 2008, que também prevê canudinhos embalados individualmente.
Decidi passar em estabelecimentos comerciais: farmácia, shopping, supermercado. Dá para comprar pouca coisa sem plástico. No mercado, não pude pegar carrinho nem cesta. Derrubei tudo no chão, várias vezes. Levei para casa pão fresco, manteiga em lata, ovos, atum, frutas e um sabonete. Na saída, com sacola de pano no braço, percebi que o destino não ia me favorecer: estava chovendo! Por causa do dia sem plástico, tinha deixado a sombrinha em casa. Resignada, segui na chuva. O cabelo não ia ficar pior do que já estava sem xampu.
Em casa novamente, percebi que não poderia ouvir música (o Ipod é de alumínio, mas o fone é plástico), assistir a tevê (feita de plástico!) e mexer no computador. Decidi então que o melhor a fazer era pegar um livro para ler e daí, finalmente, meu humor melhorou. Fui dormir com a seguinte questão: sem plástico a gente faz o quê?
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