A autoestima é tão importante porque é a forma como nos vemos e nos posicionamos no mundo. “Quando ela é baixa, a pessoa é insegura, não tem autoconfiança, está sempre com a sensação de que as coisas não vão acontecer e tem culpas que não são suas”, define Tatiana Centurion, psicóloga sistêmica familiar.
Os pais são a nossa primeira referência. “O primeiro desejo da criança é ser aceita pelos pais. Se ela se sentir aceita como é, amada como é, vai ter boa autoestima”, diz a psicóloga. Tudo começa com dedicação. “Ter interesse pelo universo da criança gera uma sensação de que ela é importante. É cuidar quando bebê, ir a reuniões e apresentações da escola, brincar junto, se interessar pela lição, pelos amigos. É descobrir coisas em comum que tirem o adulto do seu tempo para entrar no tempo da criança”, afirma a psicóloga Fernanda Roche, mestre em Saúde Mental Infantil e coordenadora do Espaço de Desenvolvimento Criança em Foco.
Espelho
Mas não basta apenas interagir. O exemplo é essencial. “No convívio familiar ela ouve e enxerga como agem seus pais em relação a si mesmos, ao cônjuge, aos seus amigos e aos seus filhos. E pode haver congruências ou incongruências entre o que digo e faço e como eu reajo. Os pais são espelhos onde os filhos podem se refletir e se identificar, assim como os demais relacionamentos significativos, com professores, colegas e amigos. A criança só pode se ver por meio dos reflexos que ela produz nos outros”, explica a psicóloga e psicoterapeuta Vera Regina Miranda, mestre em Psicologia da Infância e da Adolescência e professora da Universidade Positivo.
A empresária Ana Paula Zilio Assunção, 36 anos, sabe o valor do exemplo na educação dos filhos Thiago, 6, e Julia, 4. “Não adianta falar uma coisa e fazer outra diferente”, diz a mãe, que costuma dizer e mostrar aos filhos que é preciso se amar como se é. “Sempre falo que a gente é lindo fazendo o bem, sendo bom para o amigo.” Para convencer a filha de que seus cachinhos eram lindos, Ana Paula chegou a enrolar seus próprios fios lisos.
É aquele tipo de atitude que vai ficar para sempre com os filhos, que nutre de afeto a memória e traz aquela calorosa sensação de pertencimento. A engenheira civil Maria Alice Cordeiro Soares, 37 anos, teve uma dessas com o filho Pedro Henrique, 11. Para mostrar o que é o tão falado amor incondicional, Maria Alice leu no dicionário o significado da palavra ao filho. E complementou: “Vou te amar em qualquer situação, por outro lado, vou sempre te corrigir”. Para a mãe, é importante dar a segurança de que os pais estarão sempre dispostos a dar apoio.
E não termina na infância, já que a autoestima é um processo dinâmico. Há momentos em que ela está mais em alta, outros que fica em baixa. “Para um filho, o olhar de um pai sobre ele sempre importa, em todas as fases. A necessidade de aprovação continua”, sustenta Fernanda. Claro que se o alicerce tiver qualidade, essa construção tende a ser mais sólida. “Quanto mais a pessoa tiver registros de se sentir valiosa, maior tendência de ser positiva e otimista em relação à vida”, complementa a psicóloga.
Como dar segurança
Está nas mãos dos pais a base da autoestima de seus filhos. Não é pouca coisa. As especialistas entrevistadas dão algumas dicas de como estruturar essa segurança
• Expresse amor – a criança precisa saber que foi desejada, que tem importância na vida dos pais. Ela percebe isso em atitudes, palavras e troca de carinho. “Criança precisa de colo, de acolhimento, sempre”, diz a psicóloga Tatiana Centurion. Mesmo na adolescência, quando eles dizem que não querem.
• Reconheça as capacidades – valorize as conquistas de seu filho, mas também oriente em seus erros. E lembre-se: orientação não é crítica, nem julgamento.
• Estimule a autonomia – quando os pais interferem o tempo todo, é como se a criança não fosse capaz. Ela fica muito desestimulada de continuar tentando.
• Evite o excesso de proteção – criança protegida demais pode acreditar que apenas seus pais são capacitados para agir, passando a depender deles em atitudes nas quais deveria ter iniciativa e autonomia.
• Demonstre interesse – pelas suas coisas, pelos seus estudos, pelos seus amigos.
• Valorize suas opiniões e sentimentos – pergunte sempre sobre o que está acontecendo e quando perceber emoções negativas ou positivas, questione sobre como seu filho se sentiu naquele momento. Mas não exagere para não ficar cansativo.
• Valorize pelo que ele é, não pelo que faz – jamais ridicularize seu filho. Se ele tentou te ajudar a limpar a casa e não fez direito, o importante é a intenção. Aos poucos, vá ensinando a fazer “melhor” e não fazer “direito”.
• Não elogie o tempo todo – a criança percebe quando o elogio é falso. Se ela traz um desenho sem capricho e você sabe que ela tem condições de fazer melhor, incentive-a.
• Pai e mãe são humanos – não tenha receio de dizer “não estou bem agora, conversamos depois”. Nem de assumir seus erros ou pedir desculpas.
• Tudo tem seu tempo – não tenha pressa de que seu filho passe para a próxima fase. Que ele ande logo, fale logo. “Os pais devem se lembrar que as fases não evoluem todas no mesmo ritmo. Às vezes o filho de 11 anos é inteligente em várias áreas e tem uma reação emocional que parece de uma criança de 7. A diferença de níveis faz parte do amadurecimento”, explica a terapeuta ocupacional Gláucia Gallerani.
• Não rotule – frases como “você não tem jeito”, “você é terrível”, “você é egoísta” levam a criança a acreditar naquilo e ela desiste de mudar ou aprender. Critique o comportamento, não a pessoa: “Não gostei do que você fez” no lugar de “não gosto de você”.
• Diga não – dizer sempre sim ao filho é um erro. “Viver pressupõe administrar contrariedades e imprevisibilidades, que devem ser administradas dentro e fora do contexto familiar, porque cedo ou tarde elas surgirão”, lembra a psicóloga Vera Regina Miranda.
Serviço
Fernanda Roche (Espaço de Desenvolvimento Criança em Foco, faz estimulação de bebês), fones (41) 3232-4837 e 9630-0364, site www.criancaemfoco.com.br.
Gláucia Gallerani (Oficina de Crianças, faz estimulação de bebês), fones (41) 3095-7144 e 8427-2935, site www.oficinadecriancas.com.br.
Tatiana Centurion (psicóloga sistêmica familiar), fone (41) 3019-9553.
Vera Regina Miranda (psicóloga e psicoterapeuta), fone (41) 3332-3656, email verarmiranda@hotmail.com.
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