Comportamento

Um presente para quem dá e recebe

Annalice Del Vecchio, especial para a Gazeta do Povo
22/12/2013 02:04
Toda vontade de ajudar é válida, seja por qual motivo for, desde que haja senso de compromisso e responsabilidade. “Quem se compromete a visitar crianças com câncer, por exemplo, deve ter em mente que passa a ter essas pessoas à sua espera”, lembra Lurdinha Drabik, analista do Centro de Ação Voluntária (CAV), organização sem fins lucrativos que faz a ponte entre voluntários e instituições. Por isso, deve-se, antes de mais nada, escolher algo que dê prazer. “O trabalho voluntário é a mais pura expressão da vontade. Nunca deve ser encarado como algo pesado, sofrido”, explica.
A assistente social Ana Mariani, de 61 anos, fez sua opção pelos idosos na faculdade. “A velhice é o inverno, o último degrau da vida, e o mais esquecido pela sociedade”, justifica. Há dez anos, ela passou a se dedicar intensamente às “avós” que vivem do outro lado da rua de sua casa, no Asilo São Vicente de Paulo. Três vezes por semana, no mínimo, coordena uma pequena equipe de voluntárias que pinta e borda com boa parte das 143 idosas da instituição. “Tenho tempo para elas e meu esposo não se importa quando estou ausente porque sou feliz no que faço”, conta Ana.
Entre suas atribuições está ensinar as moradoras do asilo a realizar todo o tipo de trabalhos manuais como pintura em tela, mosaico, tapeçaria e tricô. Uma vez por semana, ela ajuda as idosas com Alzheimer que passam o dia no asilo a exercitar sua memória. “Faço perguntas e a memória vai vindo, elas vão ficando rápidas.”
Infelizmente, Ana pode contar nos dedos as voluntárias que permanecem por longos períodos. “Muitas vêm apenas uma vez e não voltam, outras dizem que têm que cuidar da casa, viajar”, diz.
Tempo, por mais curto que seja, não é empecilho quando se quer praticar o bem. “É possível fazer voluntariado da mesa do escritório”, conta Lurdinha Drabik. É o caso do coach e psicólogo Gustavo Adolpho Leal Brandão, 53, que sempre encontra espaço em sua agenda para auxiliar os administradores da ONG Recanto Esperança, de atendimento a crianças e adolescentes em situação de risco, a aprimorar suas habilidades de gestão. “Eles me ligam sempre que precisam de orientações. Costumo dizer que essa é uma via de mão dupla, pois também me desenvolvo, inclusive profissionalmente”, conta o coach, que também põe a mão na massa na hora de organizar bazares e festas para a entidade e, dentro de seu escritório, atende alguns clientes sem cobrar a consulta. “Ou desafio a pessoa a fazer algo em troca, como um bolo”, conta.
Senso humanitário
O gastroenterologista Césio Johansen de Moura, 73 anos, trabalhou em hospitais públicos por muitos anos com a convicção de ajudar quem mais precisa. Até que, em 1986, o atendimento a pessoas de baixa renda iniciado por ele nos fundos de uma igreja na Vila Tapajós daria origem a um projeto que lhe trouxe imensa realização: o Núcleo Canaã Saúde, sediado desde 1993 na Igreja Presbiteriana Independente de Curitiba, no Largo da Ordem. Ali, cerca de 50 voluntários, entre médicos, dentistas, fisioterapeutas e massoterapeutas, oferecem consultas ao público em geral com valores de até R$ 40 – ou mesmo gratuitas –, a quem não pode pagar. Há ainda uma farmácia com remédios doados que podem ser solicitados com receita médica.
O senso humanitário levou este professor aposentado de cirurgia geral da Universidade Federal do Paraná (UFPR) a se mudar em 2005 para uma região ribeirinha de Rondônia, no norte do país, onde atuou como missionário durante seis anos. “Ali, pude perceber mais claramente que 80% das doenças são passíveis de prevenção”, diz. Por isso, quem vai ao seu consultório, no núcleo, não recebe necessariamente um diagnóstico, mas orientação. “As pessoas chegam com seus problemas e, no início, parece que são apenas físicos, mas são mentais, espirituais…”, conta o médico.
Educação do coração
Outras habilidades, além das profissionais, podem ser colocadas à disposição dos outros. “Alguém que cozinhe bem pode fazer isso em uma instituição. Às vezes, a pessoa canta como hobby e não sabe que pode usar esse talento”, alerta Lurdinha. Muitas vezes, conta mais a experiência de vida do que a formação. Sandra Maria Procopiak Monteiro de Almeida, 53, que trabalhou profissionalmente como fotógrafa e vendedora, há 15 anos ajuda a Associação Paranaense Alegria de Viver (Apav) a montar cestas básicas para doar a famílias com crianças portadoras do vírus da aids. “Em troca das cestas, que são entregues todos os meses, as famílias contam se a criança está fazendo os exames regularmente, se está saudável. Nestes momentos, só o fato de escutá-las é recompensador, mas, se for preciso, tento aconselhá-las a partir da minha vivência”, diz.
Ainda adolescente, Sandra ouviu de seu médico o conselho de que só ficaria bem quando passasse a se dedicar ao próximo. “Aquilo não me saiu da cabeça.” O voluntariado praticamente diário foi, para ela, uma “educação do coração” que só lhe trouxe coisas boas. “Estamos neste mundo para ajudar o próximo”, considera. Ao que Ana Mariani, voluntária do Asilo São Vicente de Paulo, completa: “Se Deus me deu tudo o que sonhei, não vou dar nada para ninguém?”.