Comportamento

Uma tarde no cinema

Larissa Jedyn
19/10/2008 03:00
Enquanto explica como faz para se manter sempre elegante – ela decora os detalhes de cada uma de suas peças de roupa e faz as combinações a partir disso –, Erlita abraça o meu próximo entrevistado: Cayo Miguel Ángel Martín Cristóbal, 61 anos, professor aposentado de espanhol das universidades Católica e Tuiuti. Ele, que há dois anos perdeu 95% da visão no prazo de um mês, em decorrência de um glaucoma e do descolamento de retina, é o mais animado na sala de cinema – mexe com todo mundo, faz piadas do filme (o sangrento Os Esquecidos), discute a fotografia da obra… Entremeado a isso, fala sobre importar projetos do governo espanhol destinado a deficientes. “Estou em contato para ver o que posso trazer para cá. Lá eles são muito mais organizados, a atuação com os deficientes visuais é séria e os resultados animadores”, diz ele, que é professor voluntário de espanhol no instituto e uma das vozes mais ativas na defesa dos direitos do grupo: “O que são essas calçadas? São criminosas. Mas sabe, não é só uma questão de verba. O que falta mesmo é sensibilidade.”
Antes de encerrar as entrevistas do dia um aparte técnico: eu assisti ao filme vendada. A experiência única me fez perceber que realmente falta-me eficiência nos outros sentidos que não a visão: me atrapalhei ao distingüir os personagens e me distraí diversas vezes. O filme mexicano apresentado na Cinemateca, durante a 3ª Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América Latina, continha os diálogos originais e uma descrição de tudo o que ocorria na tela (o que entrava em quadro, quem fazia parte da cena…).
Voltei ao instituto com o ônibus do grupo e vim conversando com José Maria Ferraz Sereno, 59 anos. Interno do IPC, ele ficou cego por conta de um AVC. “Você acredita que precisou acontecer isso para eu encontrar o amor?”, revela ele, apaixonado por sua Nazilet, outra interna do instituto. E não há de ver que a cupida foi a simpática Erlita? “Eu cheguei, ela fez amizade e foi me apresentando para todo mundo. Não demorou muito a tramar o meu namoro com a Nazilet”, comenta Sereno, que no último mês se ofereceu para doar um rim para a amada, que sofre de insuficiência renal. “Ela é o melhor que tenho. Porque não faria isso?”