Comportamento

Violência e cumplicidade

Adriano Justino
17/10/2005 00:31
A mulher que apanha quase sempre é cúmplice do homem que bate. Segundo Cristina, coordenadora do grupo Mulheres que Amam Demais Anônimas de Curitiba (Mada), ambos são doentes. Isso explicaria porque tantas delas se calam, mesmo sofrendo, reclamando da vida, encontrando no inexplicável as razões para não denunciar seus agressores. Há uma teoria desenvolvida pela psiquiatra norte-americana Lenore Walker que identifica ciclos distintos na violência doméstica. A primeira fase é a escalada da tensão, em que normalmente a mulher se anula para acalmar o parceiro. Em seguida vem a sessão de violência já esperada. Passado o momento de explosão, vem a bonança. “Não são raras as vezes que a mulher acelera esse processo para que a lua-de-mel chegue mais rápido. Então provoca, cria a tensão, apanha para aproveitar quando ele se arrepende e faz tudo para agradá-la”, diz Cristina.
Segundo a delegada Darli Rafael, muitas mulheres que denunciam seus companheiros retiram a queixa antes da audiência ou quando vêm, os trazem para que eles dêem sua versão dos fatos e normalmente negam fatos citados no primeiro depoimento. “Essas mulheres encontram as mais variadas desculpas para não denunciar seus agressores. Tem de ser um processo consciente. Elas têm que decidir que tipo de vida querem levar, o que é melhor para elas, se querem continuar como vítimas, se querem continuar se queixando.”
Há mulheres que se unem a homens que já têm histórico de violência, de pequenos delitos, de consumo abusivo de álcool ou drogas. “Pequenos sinais servem para identificar que as coisas não vão bem ou que podem piorar com o tempo. Ele impõe que você não vá aos lugares, não fale com as pessoas, não corte o cabelo. Mas quem é esse desconhecido?”, questiona a delegada.