Você entra em um lugar enfumaçado e sai dele com a roupa perfumada, do mesmo jeito que entrou. Antes de se expor ao sol, pode recorrer a um chapéu com filtro solar. E que tal sair para correr usando roupa com proteção antibacteriana, que evapora o suor e monitora seus batimentos cardíacos? Seja bem-vindo ao universo da engenharia têxtil, que não tem nada de ficção científica. Seus inventos são comprovados na prática, nas ruas. Nós, do Viver Bem, lançamos o olhar sobre um pedaço de tecido moderno e tentamos decifrar o que dizem as fórmulas intelegíveis inscritas nas etiquetas de composição.
Quem nos ajuda nesta tarefa é Sylvio Nápoli, gerente de infra-estrutura e capacitação tecnológica da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e da Confecção (Abit). Segundo ele, o desenvolvimento tecnológico dos tecidos se deve a uma evolução nos últimos dez anos do maquinário e, principalmente, das fibras e acabamentos. Um bom exemplo é o que aconteceu com as garrafas pet: “O que era jogado fora, em forma de embalagem, volta como fibra têxtil. Isso porque, depois de reciclada, a pet vira poliéster virgem, que pode ser usado na indústria têxtil como fibra ou filamento, ou voltar a ser embalagem. O aproveitamento é mais lógico e a finalidade mais nobre”, afirma.
A engenharia têxtil tem trabalhado no desenvolvimento da genética de algumas fibras para que se tornem mais resistentes, tenham melhor produtividade e não causem tanto impacto no meio ambiente, como é o caso do algodão orgânico. “A planta tem de ser cultivada sem agrotóxico, todo o processo industrial livre de produtos químicos e resíduos para o ambiente. Tudo tem de ser certificado. Senão vira propaganda enganosa, como aconteceu com o bambu, que é uma fibra ótima, maleável, de toque aveludado, mas de produção altamente poluente. Ou seja, vendê-la como fibra ecológica não é correto. A parte boa do bambu é que a planta se reproduz com facilidade, o que acaba valorizando-a em relação a outros tipos de viscose, feitos de celulose de madeira. É diferente usar bambu e cortar uma árvore”, diz Nápoli.
A lista de funções dos tecidos high tech aumentou muito desde o lançamento do primeiro grande conhecido do público: o supplex, que nasceu nos anos 90 e tinha como função principal impedir a retenção de suor na roupa – o tecido é feito com microfilamentos, capazes de canalizar o líquido. Agora, a revolução tem ficado por conta dos acabamentos que utilizam-se da nanotecnologia aplicada nos tecidos. Na prática, isto quer dizer que, depois da trama pronta, ela recebe um banho ou passa por algum processo mecânico que soma às fibras características inovadoras, como cápsulas de hidratante, filtro solar ou agentes que combatem mau cheiro e bactérias. Existem até as chamadas medical clothing (vestuário medicinal, em inglês), feitas de tecidos capazes de monitorar a saúde do usuário, por meio de sensores que avaliam a descarga muscular em diferentes partes do corpo. Esta tecnologia é fruto de uma pesquisa do Sixth Framework Programme for Information Society Technologies, financiada pela União Européia.
Cifras
Investir em tecidos inteligentes, no entanto, depende da relação custo/benefício. Ou seja, normalmente, se faz o que tem procura. O Brasil, segundo Nápoli, já tem boa produção, mas os grandes pólos são Itália, Alemanha, Japão, Estados Unidos e China – que não é tão competitiva neste mercado quanto com os produtos de commodities. “Os tecidos brasileiros, principalmente os de algodão, têm qualidade para competir. O nosso problema não está na produção industrial, mas no que fica para fora da porta da fábrica: os encargos financeiros, que encarecem demais o produto. Temos problemas com ou sem crise econômica, mas graças à demanda interna é que a crise não será tão profunda”, prevê ele. Grandes lojas de departamento já têm nas araras malhas pet e de algodão orgânico.
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Tá quente, tá frio
Uma roupa que muda de cor conforme varia a temperatura do seu corpo. Nem pense naquelas indesejáveis marcas de suor que parecem nas roupas coloridas em dias de calor. A novidade é fruto de tecnologia pura, muito mais recente do que aquela que facilita a transpiração dos tecidos: a Basf, que já está há uma centena de anos no segmento têxtil, criou com exclusividade para a Animale o tingimento termo crômico, que promove uma interação entre corpo e roupa e cria um efeito de degradê sutil, que se altera quando o corpo esquenta.
Tudo bem que a modelagem da roupa reforça o ar futurista, mas a explicação da Basf para a técnica parece saída de um roteiro de filme de ficção científica: as roupas são tingidas com um mix de pigmentos termo crômicos, pigmentos normais com outros produtos para fixação da cor e amaciamento do tecido. Quando a temperatura corporal atinge 31ºC, o pigmento termo crômico fica branco e prevalece a cor do pigmento normal, enfatizando ainda mais o efeito de mudança. Para a Animale foram feitas misturas com pigmentos termo crômicos azul, preto e verde e pigmentos normais laranja flúor e rosa flúor.
Mas no geral, o mercado de tecidos permanece restrito aos produtos tradicionais. Segundo Soraya Tacla, proprietária da loja Quinta Avenida, o comércio hoje se divide basicamente entre tecidos populares e sofisticados. Os tecnológicos são mais caros e exclusivos das marcas que os encomendam. “Mesmo assim, continuo dizendo que os melhores são os tecidos 100% lã, algodão, seda… Eles têm bom caimento e textura, diferente dessas modernidades que nem sempre são boas para as pessoas. Basta ver os tecidos sintéticos”, comenta.
Serviço
Associação Brasileira da Indústria Têxtil e da Confecção, site www.abit.org.br / Quinta Avenida – Tecidos Finos, Rua XV de Novembro, 11, fone (41) 3322-7855. Agradecimento: Le Lis Blanc Casa (lupa da capa), ParkShopping Barigüi
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