Moda e beleza
Depois da bronca que tinha levado por usar uma camiseta velha e furada como pano de chão, a diarista Ana, segurando uma mariposa pela asa, achou melhor perguntar: “Seu Marcelo, é pra jogar fora?”. Ela falava com Marcelo Sommer, 43 anos, o estilista que conserva grande valor sentimental por “velharias”.
Sommer guarda parte de suas memórias em uma “caixa de referências”. São frascos de bebida, papel de presente velho, caixas de cigarro, de fósforo, entre outras coisas. Segundo o estilista, suas coleções têm forte inspiração na memória afetiva e no vintage. Esta característica está presente desde sua primeira aparição como estilista no Mercado Mundo Mix, onde fez muito sucesso vendendo brinquedos de corda, latas e camisas pólo. Esta foi a estreia da marca Sommer, que ficou conhecida por coleções que pareciam saídas dos sonhos.
A jornalista curitibana Nereide Michel, que acompanha há anos as semanas de moda de São Paulo, diz que “perder os desfiles dele era motivo de lamentação. Eles faziam a gente se sentir bem durante aquela loucura de fashion week, que nem sempre nos trazia ‘o novo e o diferente’ para a estação. Ele nos fazia sorrir e, às vezes, rir. Era divertido como uma tarde no circo ou um sarau estudantil”.
Com suas coleções voltadas à cultura jovem e ao streetwear, Sommer ficou conhecido como o Peter Pan da moda brasileira, título que recusa e não fez questão de lustrar, muito pelo contrário: “Desde o começo da minha carreira tentei me livrar deste estigma”, afirma.
A maior ruptura nesse sentido aconteceu em 2006 em um desfile da São Paulo Fashion Week. Os trevos, ferraduras, números treze e outros símbolos que usava nas coleções deram vez aos tons sombrios e estampas tristes. Esse clima tinha um motivo.
Em 2004, ele vendeu a marca Sommer para um grande grupo, mas continuou à frente da direção criativa. Quando pressentiu que seria demitido, idealizou um desfile de despedida. “Eu sempre fui muito fiel ao que estava sentindo. Foi o desfile mais caro e talvez o mais emocionante que fiz na minha vida. Não teve uma pessoa que não saiu chorando da sala de desfiles”, lembra.
Nereide Michel acompanhou de perto o burburinho daquela noite. Com a ajuda de caminhões pipa, uma chuva artificial molhou as modelos na passarela, mas deixou o público intacto. “A chuva não nos molhou, mas o coração ficou apertado e soluçou. O que seria de Marcelo Sommer sem a Sommer? Ora, a resposta não demorou a surgir: continuaria a ser o Sommer, como nos seus sonhos e nas suas lembranças. Inspirador de tantas coleções que nos fizeram sorrir e aplaudi-lo”, diz Nereide.
Não foi a primeira nem a última vez que o designer presenteou a plateia de um desfile com um momento memorável. “Eu procuro sempre passar algo mais nos meus desfiles, procuro fazer com que as pessoas levem alguma coisa para casa”, diz o estilista.
E assim continua sendo com a sua nova marca. A Do Estilista estreou na SPFW em 2007, com um desfile de inverno supercolorido e estampas ousadas. Apesar de mais maduro, Sommer mantém a característica jovem pela qual ficou conhecido. “Eu amadureci, minha forma de criar e de divulgar meu trabalho também evoluíram. Eu vendi a Sommer, mas não meu estilo, na essência ele é o mesmo. É como se eu tivesse vendido a garrafa, mas não o conteúdo”, diz.
Nesta São Paulo Fashion Week, que começa na sexta-feira, a marca Do Estilista vai colocar à venda, logo após o desfile, os looks da nova coleção no site da marca (www.lojadoestilista.com.br). “Das 150 peças do desfile, 100 vão estar disponíveis na hora para compra no site”, adianta.
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