Moda e beleza

Por uma nova revolução cultural

Larissa Jedyn - larissa@gazetadopovo.com.br
07/09/2008 03:00
O Brasil tem cultura de moda?
A cultura de moda nunca foi semeada aqui. Não se pode chamar de cultura seguir referências ipsis literis. Isso é reprodução. É muito difícil, por exemplo, pegar um aluno de moda e pedir para que ele mostre alguma coisa realmente original. Eles conhecem as técnicas da reprodução e da subcultura. Isso precisa ser revertido. O que é possível com educação e cultura e, quando isso acontecer, as pessoas não vão mais querer ser sombras de corpos que não são os delas. Essa situação de hoje é horrível, é não ter existência, é a insignificância máxima. Você se torna um consumidor de valores e cultura dos outros.
Qual é o seu papel nesta mudança?
Meu trabalho é formar pessoas, não para o mercado, mas para criar um outro mercado. É como se eu tivesse que formar médicos. Não os formaria para receitar coisas, porque preciso de médicos que descubram coisas, salvem pessoas.
Quais os desafios para que isso ocorra?
Hoje não existe cultura, não existe memória, não existe ética. Olhe para o nosso segmento têxtil: ele está perdendo postos, as indústrias estão fechando. Para fazer reprodução por reprodução, há países mais rápidos, mais competitivos. Entre um produto original e uma réplica há um lapso de tempo quase que instantâneo. A nova dinâmica do mercado passou a priorizar a disseminação, o preço, a agilidade e, por isso, entende-se que, quanto mais tempo a reprodução do original leva para ser feita, menos ela vale. E, quanto mais rapidamente é feita, ela tem mais valor. Neste cenário, o Brasil não é o país mais ágil, nem mais rápido, nem mais barato. Isso faz com que as indústrias parem de contratar estilistas e virem tradings – passem a trazer produtos de fora. Hoje você vai a qualquer lugar e 50% do material é importado. Em São Paulo, este número chega a 80%, 90%. As indústrias de moda estão sumindo. Para que então a formação em moda se a indústria não precisa mais estilistas? Não há onde trabalhar.
Mas e os pólos nacionais de moda?
Vamos partir do macro para o microuniverso. Hoje, de cada quatro produtos vendidos no mundo, dois são chineses, um indiano e o restante é produzido pelo resto dos países. Os produtos chegam ao Brasil numa velocidade absurda e esses pólos vão acabar um dia tragados por essa tsunami. Os impostos brasileiros são 400% maiores que os de qualquer país que deseje crescer. Se para tentar vencer isso e conseguir uma produção barata, 99% das pessoas que trabalham neste setor vão receber R$ por peça feita. Como pensar em moda? Temos um modelo que não nos obriga a ser inteligentes, tecnológicos, investigativos.
Qual a solução para isso?
Hoje não se pensa em como melhorar o produto, mas em como ganhar mais. Só ganharemos mais quando detivermos patentes, capital intelectual. Itália, França, Japão, Estados Unidos são potências industriais, mas não vivem de indústria, porque são também potências tecnológicas e de conhecimento. Não adianta ser apenas o braço, o chão de fábrica. É preciso ser a cabeça. As pessoas têm de compreender que a revolução industrial foi no século passado. Hoje vivemos a revolução da tecnologia, do conhecimento, da inteligência.
A distância deste ideal não torna este cenário desesperançoso demais para nós?
Pelo contrário. Quando você pensa que a única chance de sobreviver é ter cultura e conhecimento, a revolução se faz necessária. Pense: a China ainda tem muita gente e tem indústria para dar emprego para todo mundo. O Brasil não e, por isso, precisa se reinventar para sobreviver. Eu tenho um ponto de vista otimista, que é achar que isso é possível através da educação.
Em quanto tempo é possível operar esta revolução?
Em dez anos as coisas mudam ou o setor têxtil estará quebrado. A estimativa é que até 2010 sejam um milhão de desempregados no setor têxtil. Já estamos em 600 mil. Imagine um milhão de refugiados que não têm o que fazer. Eu acredito que um país possa viver de serviços, desde que tenha capital cultural e tecnológico. Sem isso, um país que vive de serviços vive também de consumir o universo alheio. É aquela história: nós vamos continuar exportando ferro e importando trilho, exportar grão e importar farinha, e esta realidade nos empobrece a tal ponto que nos tira a dignidade humana. Até que ponto isso é sustentável?
Você percebe algum movimento do governo para esta mudança?
Não. O que eu percebo é que alguns estados, como Santa Catarina que tem uma indústria têxtil forte, por exemplo, já percebem que depois de ganharem musculatura para produzir, precisam também criar.
Então a mudança precisa vir da iniciativa privada?
Sim, pois o governo não faria isso. Os empresários têm de pressionar os políticos para viabilizar a transformação de um estado numa potência. A cidade de São Paulo me convidou para um projeto que se chama “Made in São Paulo”. A idéia é valorizar o pensamento sobre design, para tornar a cidade uma das capitais do design no mundo. Se isso acontecer, é um passo para reverter essa postura que eu chamo de passiva. A Itália nos anos 50 era praticamente facção da França. Ela mudou e hoje o “made in Italy” é respeitado. Pense também em Barcelona, que, antes dos Jogos Olímpicos de 92, era uma área portuária degradadíssima. Eles criaram Barcelona e a venderam para o mundo. É possível reverter essa ladeira abaixo. Basta usar inteligência, usar o design estratégico. Mais do que inventar a roda, é preciso torná-la visível. O “Made in São Paulo”, o Santa Catarina Moda Contemporânea, o Paraná Business Collection são indícios da iniciativa privada de querer criar um certo orgulho e percepção dos valores locais.
Você sente alguma restrição por ter vindo da moda?
Acho que tenho um perfil abrangente, caminho por outras áreas. Tenho um projeto com uma série de curadores, em São Paulo, que integra tudo isso: o “Quilômetro, Metro, Milímetro”, em que o quilômetro é a cidade; o metro é a roupa e os espaços; e o milímetro são os objetos, a pele dos vestidos. E quando eu insiro a moda neste contexto não estou falando só de roupa. A moda é o todo, é a cadeira onde você senta, a louça em que se come. Moda vem de modum, do modo de viver, dos espaços que você habita. Quando você percebe isso pode também perceber a cultura de um lugar.
Como é o seu trabalho com as cooperativas de desenvolvimento agrário, apoiadas pelo Sebrae?
Estou trabalhando com caboclos que foram assentados nas margens do Rio Amazonas. Eles não vêm da tribo “x”, que tinha a tal técnica de pintura. Eram pessoas que viviam em cidades e foram para a floresta. Eles sabem tramar, fazer teçume (cestaria), coisa que você encontra em qualquer comunidade caiçara e pela qual não se pode cobrar muito. Por isso, é preciso trabalhar a percepção do que é local, o que há ali que pode ser incorporado e definido como amazônico.
Como se dá o workshop como o que você ministrou durante o Paraná Business Collection?
No primeiro dia, “arranquei a pele” das pessoas. Como uma pessoa que trabalha com roupa, que é extensão do corpo, não compreende este corpo como algo que ocupa espaço? Elas foram cobertas por fitas adesivas para perceberem a volumetria, como construir e reconstruir esse corpo, tal como ele é no espaço, sem alterações ou cálculos. Aprenderam a transformar isso num molde industrial e a entender o que antes era uma curva intelegível corresponde a uma anca, a pence está ali por causa do peito. Muita gente diz que não modela, só desenha. Na minha opinião, quem só desenha não faz nada. A segunda descoberta foi ressignificar, desconstruir para elaborar um novo discurso. Eles levaram roupas para estabelecer diálogos entre memórias do pai de um com a mãe do outro, entre a alfaiataria e as roupas esportivas. Descobriram que podiam modelar e depois se deram conta de que precisavam saber o que queriam modelar. Precisavam de uma intenção. Vilanova Artigas (arquiteto, que nasceu em Curitiba e fez carreira em São Paulo), disse que o desenho é como escrever, é saber comunicar, mas necessita de um desígnio, uma intenção. No último dia eles costuraram essa história.
Você acompanha os seus alunos depois que eles se formam?
Eu acabo voltando às cidades, reencontrando alguns que abriram ateliês, outros levo para trabalhar comigo em algum projeto. As pessoas precisam compreender essa troca, esse altruísmo como uma característica do criador. Afinal, só é possível transformar coisas inanimadas em vida se você se doar um pouco.
Você ainda tem dúvidas na sua carreira?
Sou cheio de dúvidas, nunca sei o que fazer. Estou fazendo o presente. Santo Agostinho já dizia estar errado falar de presente, passado e futuro. O mais correto, segundo ele, seria falar em passado presente, presente presente, futuro presente. A única coisa que existe é o presente. É o agora. Não tenho certeza nenhuma. Mas eu sei que vai dar certo.