Menino de 8 anos cria campanha “A touca que toca” para ajudar pessoas com câncer
Eriksson Denk, especial para a Gazeta do Povo
08/08/2017 10:31
Peças arrecadadas já foram doadas, mas a campanha continua. Foto: divulgação
Em meados de junho, Enzo Mocelin teve a ideia de arrecadar toucas, cachecóis e luvas de lã para “esquentar o coração de quem luta contra o câncer”. A promessa movimentou a Escola Municipal Júlia Amaral Di Lenna, no bairro Barreirinha, na zona norte de Curitiba, onde o garoto de apenas 8 anos passa os turnos da tarde. Nesta segunda-feira (7), crianças que enfrentam quimioterapia e radioterapia em hospitais da cidade começaram a sentir na pele o calor desse abraço.
Em dois meses, alunos, pais e professores arrecadaram 240 toucas, 110 cachecóis, 10 meias, 15 luvas de lã e 43 mechas de cabelo na campanha A Touca que Toca. A Associação dos Amigos do Hospital das Clínicas já recebeu 150 toucas e 50 cachecóis. Nesta terça (8), as doações continuam no Hospital Erasto Gaertner e na Associação das Amigas da Mama, onde Enzo, a mãe, a diretora da escola e outros alunos vão participar da entrega das cabeleiras e de uma aula de confecção de perucas.
Enzo e as peças arrecadadas: 240 em 60 dias.
A inspiração de Enzo é Isa, menina de 6 anos que luta contra um câncer na cabeça. E também a tia, irmã de Rosana Mocelin, sua mãe, que foi diagnosticada com um tumor no seio aos 25 anos, lutou por outros 13 e faleceu antes de completar 40. “Acho que ele sempre acompanhou essa luta em nossa casa, de maneira que deve ter se sensibilizado. Além disso, Enzo é muito carinhoso com as pessoas”, conta a mãe.
Enzo e Isa são bons amigos. Ela é de Marechal Cândido Rondon, às beiras do Rio Paraná, no Oeste do estado, e se transferiu para a capital para enfrentar o câncer com mais armas. A família não tem muitos recursos e Isa e a mãe chegaram a morar por um mês no Erasto Gaertner, ela na cama e a mãe no sofá. Em alguns dias, os Mocelin mudaram totalmente essa história.
Proximidade
“É uma passagem inusitada na nossa vida, porque quem me contou das duas foi a minha irmã, que mora em Marechal. Elas não tinham dinheiro e uma doação grande de pijamas, cobertores, movimentou a cidade quando vieram. Minha irmã perguntou se eu poderia fazer essa ponte. Falei que sim. Passei a levar as coisas para ela. Mas fiquei arrasada quando vi a Isa pela primeira vez. Eu já estava acostumada à luta contra o câncer, mas não com a luta de uma criança”, conta.
Desde então, Isa passou a frequentar a casa dos Mocelin nas imediações do Parque São Lourenço e a família arrumou uma pensão gratuita para as rondonenses. “Um belo dia o Enzo chega para mim e fala: ‘vou fazer uma campanha na minha sala’. Ele dizia que as crianças carecas passavam muito frio no inverno. Não levei muito a sério, achava que era coisa de criança”, diz a mãe. “Mas um dia busquei ele na escola e a diretora perguntou se eu autorizaria ela a fazer um vídeo com ele. E o que eu acharia da campanha envolver não apenas o 3° ano (em que estuda), mas a escola inteira. De repente todos da vizinhança ficaram sabendo e apareceram lá em casa com doações”.
A Touca que Toca
Julianna Laudiceli de Oliveira Cruz, diretora da escola há nove anos, é a principal responsável pelo vídeo. A certa altura, sentado em um banco de recreio, Enzo explica a ideia para a câmera. “É para doar tudo o que puder esquentar o coração de quem luta contra o câncer”. Essa conversa dos dois foi visualizada por mais de mil pessoas, o que impulsionou A Touca que Toca na Barreirinha.
Na Festa Junina da Júlia Amaral Di Lenna, que aconteceu poucos dias depois dessa parceria, em 10 de junho, diretora e professoras oficializaram a campanha para os pais. Minutos depois, outra surpresa: uma mãe e outra aluna, um pouco mais velha, do 5° ano, apresentaram a ideia de complementar as doações originais com mechas de cabelo.
Elas mesmas tomaram a dianteira. “A criança nunca tinha cortado o cabelo. Foi a primeira vez. O pai não autorizava. Mas quando soube da campanha, mudou de ideia no mesmo instante”, conta a diretora. Depois delas, 43 crianças, a maioria estudantes da escola municipal, repetiram a atitude.
Em dois meses, mais fatos inusitados aconteceram na comunidade. Um guri do 5° ano cortou a cabeleira que ostentava e uma mãe que é cabeleireira doou oito mechas do salão onde trabalha. Rosana passou a receber doações em casa, a turma do Enzo passou a liderar os cartazes espalhados pela escola e os 1200 colegas de 1° a 9° ano se empenharam nas arrecadações extra-classe.
“Isso é o que a gente busca, despertar esse momento, principalmente nessa geração, para que consigam fazer melhor do que a gente. Pelo menos se importar, acolher, olhar para o lado”, conta a diretora da Escola Municipal Júlia Amaral Di Lenna.