Saúde e Bem-Estar

Conforto após a perda

Adriano Justino
24/10/2005 01:04
Um AVC matou a irmã da comerciária Miriam Aparecida Cezário. “Pensamos que tudo ficaria bem de novo, mas ela nunca mais voltou do hospital. Passados uns dias, a morte cerebral foi detectada e os médicos nos explicaram que ela estava sendo mantida viva apenas com a ajuda de aparelhos”, conta.
Miriam “perdeu o chão”. “E aí lembrei de uma conversa que tivemos. Ela acompanhou a história de uma amiga que precisava transplantar as córneas e ficou anos na fila. Na ocasião ela me disse que quando morresse, poderíamos doar tudo. Conversei com o marido dela e a minha mãe e decidimos doar seus órgãos, mesmo com a resistência de outros familiares, que diziam que a gente queria matá-la”, lembra.
Como Elizabete faleceu logo depois, não foi possível doar os órgãos internos. “Quando nos falaram da possibilidade de doar tecidos e ossos fiquei um pouco preocupada, achando que ela ia ficar mutilada, mas não é assim. Doamos os tecidos, as córneas, o globo ocular e as válvulas do coração”, conta Miriam. “Para nós, saber do bem que seria feito, foi um conforto naquele momento de sofrimento.”
O oftalmologista Hamilton Moreira, membro da Câmara Técnica Nacional de Transplantes, reforça que o número de doações ainda é baixo por desconhecimento. “As pessoas não entendem o procedimento, acham que haverá atraso no enterro, entre outras dificuldades. Por outro lado, faltam ainda agentes nos hospitais que consigam abordar as famílias nesse momento trágico e lembrar da possibilidade da doação”, pondera.