Saúde e Bem-Estar

Esperança para quem tem artrite reumatóide

Érika Busani
19/08/2007 20:25
O pintor Pierre Auguste Renoir – um dos representantes do impressionismo – foi uma exceção. Não só pelo talento indiscutível, mas também porque, vítima de uma doença que até há pouco tempo significava deformidade e incapacidade para trabalhar e realizar as tarefas do dia-a-dia, não desistiu. A artrite reumatóide impossibilitou o pintor de mover suas mãos, mas ele adaptou um pincel preso com correias aos braços para realizar suas obras.
Doença crônica e auto-imune – o que significa que o corpo produz defesas em excesso, causando uma auto-destruição –, a artrite reumatóide leva à deformidade e à destruição das articulações, em virtude das erosões ósseas (osteoporose) e das cartilagens.
Até bem recentemente – década de 80 – não havia muito o que fazer contra a doença e sua progressão. Mas os tratamentos evoluíram tanto nos últimos anos que os médicos hoje têm a preocupação de diagnosticá-la o mais cedo possível. “Existe uma janela de oportunidade de até um ano após a primeira manifestação da doença para início do tratamento. Quando ainda não há destruição articular, o paciente pode se manter ativo durante toda a vida. As deformidades já instaladas não têm retorno”, alerta o reumatologista carioca Geraldo Castelar, diretor científico da Sociedade Brasileira de Reumatologia.
Ele foi um dos médicos que participou em São Paulo do workshop que trouxe as últimas novidades sobre a doença apresentadas no Congresso Europeu de Reumatologia (Eular), em Barcelona, na Espanha, em junho. Um estudo apresentado lá demonstrou a eficácia do rituximabe – comercialmente chamado de MabThera – em pacientes que não respondem aos tratamentos tradicionais. Foram avaliados 1.053 pacientes, que passaram mais tempo sem sintomas da doença – dor nas articulações e inchaço – após o primeiro tratamento de duas infusões do remédio. O número de pacientes que alcançou 70% de melhora nos sintomas passou de 11% para 25% no terceiro curso de tratamento.
O medicamento é da classe dos chamados anticorpos monoclonais, que atingem células específicas – no caso, as células B – sem destruir as outras defesas do organismo. “Os agentes biológicos têm revolucionado o tratamento da artrite reumatóide, melhorando boa parte dos pacientes refratários aos demais tratamentos. Boa parte deles atinge a remissão completa da doença”, anima-se o reumatologista Sebastião Radominski, chefe da especialidade de Reumatologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ele coordenou em Curitiba um dos grupos do estudo com a droga, que ajudou a liberá-la no Food and Drug Administration (FDA), órgão que regula alimentos e medicamentos nos EUA.
O esquema de tratamento é outra vantagem apontada pelos médicos. São duas aplicações endovenosas, com intervalo de 14 dias. A segunda rodada é feita, em média, nove meses após a primeira. A desvantagem, por enquanto, é o preço elevado: em média, R$ 30 mil para o tratamento anual – quatro frascos da droga, que correspondem a duas infusões. E não está disponível na lista do Ministério da Saúde. “Precisamos começar a discutir com o governo e a sociedade a necessidade de remédios que infelizmente ainda são muito caros, mas podem trazer melhoras para o paciente e também benefícios econômicos. O governo precisa pensar mais em termos de farmacoeconomia. A progressão da artrite reumatóide significa incapacidade para relização das atividades diárias, além dos custos intangíveis como sofrimento, solidão, perdas nas relações sociais, profissionais, afetivas e sexuais”, diz o presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia, Fernando Neubarth.
Vida normal
Aposentado, Luiz Carlos Ramos, 72 anos, decidiu continuar trabalhando. A fotografia virou profissão e tudo ia muito bem até abril deste ano, quando ele acordou com as duas mãos inchadas e com uma “dor terrível”. “Não podia comer, escovar os dentes, fazer nada sozinho”, relata.
Exames feitos, o diagnóstico foi de artrite reumatóide. Aprovado para participar de um novo estudo com pacientes em estágio inicial da doença, Luiz Carlos se submeteu a uma infusão do rituximabe. “As dores foram sumindo e hoje está em zero. Faço tudo sozinho, continuo trabalhando, levo uma vida normal”, alegra-se.
Ele controla a doença com outros medicamentos diários e o sucesso de seu tratamento deve-se também ao que os médicos buscam atualmente: o diagnóstico e o tratamento precoces, que impediram que Luiz Carlos desenvolvesse as deformidades decorrentes da doença.
A jornalista viajou a convite do Laboratório Roche.
Serviço: o reumatologista Sebastião Radominski está iniciando estudos com novos medicamentos para artrite reumatóide. Informações pelo fone (41) 9109-6167.