Saúde e Bem-Estar

O poder do som

Denise Drechsel
03/10/2005 00:35
Feche os olhos e escute. Os sons ao seu redor – telefone, música, tráfego, avião ou outro qualquer – exercem uma influência muitas vezes insconsciente sobre o seu humor. As diversas vibrações sonoras provocam respostas no organismo que vão desde a sensação de relaxamento e estímulo a reações de agressividade, cansaço e dificuldade de concentração.
Segundo especialistas, a resposta a um determinado padrão sonoro tem elevado grau subjetivo. O que atrapalha alguns, ajuda outros e vice-versa. Uma sirene de ambulância, por exemplo, pode remeter a alguém a sensação de cura e, portanto, soar positivo, enquanto a outro é apenas um ruído incômodo e angustiante. O mesmo ritmo repetitivo do mantra oriental que acalma uns, provoca tédio em outros.
“Do ponto de vista psicoacústico, diferente da análise física do fenômeno, é difícil diferenciar o que é som ou ruído para um determinado indivíduo. E as pesquisas de preferência sonora ainda não chegaram a uma conclusão definitiva se existe algum padrão sonoro capaz de incomodar todas as pessoas”, explica a fonoaudióloga e pesquisadora Pierângela Nota Simões, professora de psicoacústica na Faculdade de Artes do Paraná.
Os sons ouvidos desde o útero materno – a partir do quarto mês de gravidez – até a maturidade, relacionados às experiências de vida, deixam na memória marcas que, com o passar do tempo, podem até curar. É o caso de Elisabete*. Filha mais velha de uma família de muitos irmãos, ela ficou com o peso da responsabilidade da família após a morte do pai. A tristeza – reprimida por muitos anos e que teve como reflexo depressão e fortes dores de cabeça – curou-se após ouvir por acaso uma música da qual o pai gostava muito. “Lembrei que ele sempre ouvia essa canção no Natal”, contou, depois de chorar pela primeira vez após a perda.
“Há pesquisas sobre a influência dos sons e o bem-estar”, afirma a musicoterapeuta Rosemyriam Cunha, professora da Faculdade de Artes do Paraná. “Quando uma criança ouve depois que nasce um som conhecido, uma canção de ninar, por exemplo, cantada pela mãe na gestação, essa música é capaz de relaxá-la e acalmá-la”, continua.
Melodias e vibrações
Dentre os sons, a música, de acordo com a musicoterapeuta, tem um papel construtivo e orientador. “Quando criança, entre outras funções, a música tem um papel importante no desenvolvimento motor e da personalidade. Na adolescência, trabalha as emoções, a crítica, a reconstrução de valores. Na maturidade, reflete a maneira consolidada de ver o mundo”, afirma.
A vibração sonora, capaz de arrepiar a pele, causar sudorese e interferir nos batimentos cardíacos, começa a ser cada vez mais estudada para o tratamento de doenças. “A exploração dos sons psicoacústicos, da sua história de vida, é feita pelos índios há muitos séculos”, diz Augusto Weber, médico acupunturista que utiliza música em suas sessões. Pesquisas em desenvolvimento no mundo inteiro, principalmente na Alemanha e na Holanda – onde as vacas escutam música clássica para produzir mais –, sinalizam que o estímulo sonoro poderá ser adotado de forma definitiva nos tratamentos terapêuticos futuros.
* Nome fictício a pedido da entrevistada.
denised@gazetadopovo.com.br