Saúde e Bem-Estar

Respire fundo e conte até dez…

Jennifer Koppe
19/08/2007 20:02
Alguém se habilita a atirar a primeira pedra quando o assunto é aquela situação limítrofe em que você tem o ímpeto de extravazar o sentimento entalado na garganta? A grande diferença, entretanto, está em ficar só na vontade e realmente perder o controle e, conseqüentemente, a compostura.
O psiquiatra Ricardo Manzochi Assné, supervisor da residência médica do Hospital Nossa Senhora da Luz, explica que quem costuma “explodir” diante de alguma situação de confrontamento ou de tensão quase sempre possui personalidade passiva-agressiva. Ou seja, tem o costume de engolir sapo, não retruca na hora da discussão, agüenta uma série de desaforos sem reclamar até a hora em que chega ao limite e então reage de forma agressiva e até mesmo violenta.
Surtar, “rodar a baiana” ou fazer escândalo – chame do que quiser – não são as maneiras mais eficientes de ser ouvido, muito menos respeitado. Talvez tenha sido bom desabafar e é bem provável que aquela pessoa que foi agredida ou insultada por você nunca mais pise no seu calo. Mas, e a ressaca moral?
De acordo com o psiquiatra, melhor do que baixar a cabeça ou armar um barraco é ser assertivo. Ou seja, demonstrar a sua insatisfação, deixar claro as suas vontades, mas de forma ponderada, sem intimidar ou constranger o outro.
Por que a gente surta?
Este tipo de incidente não é sinal de nenhuma doença – qualquer um pode surtar vez ou outra – , mas se acontecer com freqüência, pode indicar algum distúrbio de humor, como a depressão. “A irritabilidade é mais característica da depressão do que a tristeza, mas pouca gente sabe disso. É um dos primeiros sintomas da distimia (tipo de depressão crônica)”, explica Assné. “Muitas vezes pensamos que uma pessoa é simplesmente chata, quando na verdade ela está com um problema de saúde.”
Se os eventuais “pitis” estão se tornando parte de sua rotina, é bom procurar tratamento. “A psicoterapia cognitivo-comportamental é a mais indicada nestes casos, pois trabalha a capacidade de sociabilização e ajuda o paciente a reagir assertivamente diante de conflitos e problemas.”
O que é o surto?
No dia-a-dia, emprestamos este termo da psiquiatria para definir ataques momentâneos de raiva, mas o surto de verdade tem outras causas. O surto psicótico é caracterizado por delírios e alucinações. “A pessoa perde o contato com a realidade, ouve e vê coisas que não existem. Geralmente, ela tem predisposição genética a alguma doença psiquiátrica ou já apresenta sinais de esquizofrenia ou transtorno bipolar”, explica o psiquiatra Ricardo Manzochi Assné.


Um mês de louça empilhada na pia fez Alessandra perder a paciência
Pratos voadores
“Já sou conhecida por ‘surtar’ de vez em quando. Principalmente durante a gravidez, por causa das oscilações hormonais, rodei a baiana algumas vezes, mas um dos episódios mais marcantes aconteceu há muitos anos, pouco tempo depois da minha mãe falecer.
Eu morava com o meu pai e um casal de irmãos, que na época estavam fazendo faculdade. Trabalhava o dia todo e só chegava em casa depois das oito e bem cansada. Todas as noites, encontrava louça na pia e pedia para alguém lavá-la, mas ninguém me dava atenção. Então, eu mesmo lavava. Mas depois da quarta semana consecutiva encontrando a louça empilhada na cozinha, não agüentei. Comecei a jogar tudo no chão: pratos, copos, talheres, panelas… Não sobrou nada. Foi uma medida exagerada, mas consegui o que eu queria. Depois daquele dia, nunca mais deixaram a louça suja.
Guardar mágoa ou raiva não faz bem. Mas desde que a sua atitude não machuque ninguém. Acho válido ‘soltar os cachorros’ de vez em quando. Eu, pelo menos, me sinto muito melhor. Dali a cinco minutos, sou outra pessoa.”
Alessandra Sferelli, 33 anos, artista plástica e professora.
“Pitis” famosos
• O ator australiano Russell Crowe é conhecido pelo seu temperamento violento. Já quebrou um bar em Nova Iorque e agrediu um funcionário de hotel com um telefone. Ele foi detido pela polícia e pediu desculpas à vitima. Disse que estava estressado, com saudades da família e que naquela noite não estava conseguindo falar com a esposa Danielle.
• A ator americano Jack Nicholson também teve seus dias de descompensação. Depois de ser fechado no trânsito, ele saiu armado com um taco de golfe, amassou o pára-brisas e o teto do outro carro e foi embora. Ele justificou o ato dizendo que estava abalado pela morte de um amigo e que havia passado a noite anterior interpretando um maníaco.
• A separação do marido, a carreira em declínio e o abuso de álcool e drogas levaram a cantora e musa pop Britney Spears a cometer verdadeiras loucuras. Além de raspar a longa cabeleira dourada na frente de todos (dizem que fez de propósito para evitar um exame para detectar uso de drogas e não perder a guarda dos filhos), ainda atacou um paparazzi a “guarda-chuvadas”.
• Dado Dolabella perdeu a cabeça durante o programa de entrevistas de João Gordo, na MTV. O ator não suportou os comentários maliciosos do apresentador e partiu para cima dele com artefatos de luta, que de acordo com o convidado, teriam sido levados por ele para fazer uma brincadeira. Dado quebrou a bancada de vidro do cenário com uma corrente. A entrevista nunca foi ao ar.
• Calma, o ator americano Michael Douglas nunca aprontou nada no mundo real, mas na ficção já chutou o balde. Em Um Dia de Fúria (Falling Down, EUA, 1993), de Joel Schumacher, o seu personagem, o executivo William Foster, chega ao seu limite quando fica preso em um engarrafamento na cidade de Los Angeles. Ele abandona o seu carro na pista, sai a pé e no caminho de casa decide acabar com as mazelas da sociedade com as próprias mãos, sem pensar nas conseqüências.