Saúde e Bem-Estar

Silêncio barulhento

Michele Bravos, especial para a Gazeta do Povo - micheleb@gazetadopovo.com.br
30/01/2011 02:08
Argumento irrefutável. Virtude. Silêncio. Tira­no dos oradores. Precio­sidade no caos. Silêncio imaginado, cantado, transcrito. Desejo e medo. Silêncio fantasiado de audácia. Silên­cio que se faz presente. Nas estrofes, ele é facilmente au­­dí­vel pelo coletivo. Ouvir o próprio silêncio, entre ruídos, é mais árduo.
A sociedade inquieta, ansiosa e carente por desabafar, seja falando, escrevendo uma mensagem ou agindo da forma que estiver ao seu alcance, não encontra tempo nem vontade verdadeira para parar. Silenciar. Segundo o psicólogo Rubens Weber, é como se não fosse direito de cada um ouvir a própria voz. “Hoje não é permitido se conectar consigo mesmo. A gente tem medo de entrar em contato com aquilo que a gente é realmente.”
Quando a possibilidade do silêncio é ofertada é como se não houvesse preparo para aceitá-la. Então, ele vem e se torna a hora de ouvir música, ligar para alguém ou ver tevê. “Quando estou em casa sozinha, acabo ligando uma música. Mesmo que em baixo volume”, diz a comerciante Cleia Tieppo.
O psicólogo afirma que quando somos forçados a viver a ausência de sons, isso pode gerar desconforto. Mas quando se ausentar é uma escolha própria, a voz interior pode se manifestar, resgatando ideias e valores importantes e que podem ter se perdido nos ruídos diários. Weber ainda complementa: “Nem sempre eu vou escutar coisas agradáveis, mas elas também não serão destrutivas”. Essa autocrítica pode ser valiosa em um processo de crescimento pessoal.
O silêncio pode ser encontrado no que se vê e no que se sente, por isso algumas pessoas gostam de ir a um parque, à praia ou, simplesmente, se trancar no quarto. Segundo o psicólogo, através desses ritos é como se o silêncio se materializasse, podendo ser desfrutado verdadeiramente.
Como Cleia trabalha diretamente com o público, durante o seu dia a dia é difícil encontrar momentos de paz e silêncio. Quando há possibilidade, ir a uma praia calma ou para um lugar com bastante área verde é o caminho encontrado por ela para tornar o silêncio audível.
A médica Milene Meller, também terapeuta psicoespiritual, cita seu próprio exemplo: “Quando comecei a estudar para o vestibular de Medicina, descobri a natação – que dizem ser um esporte solitário. Enquanto atravessava várias vezes a piscina, repassava mentalmente as matérias do cursinho e me sentia muito acompanhada de minhas ideias e reflexões”. Milene, que é pós-graduada em Libras (linguagem dos surdos) diz ter aprendido muito com eles. “Aprendi a valorizar o som.” Ela também percebeu o quanto era desnecessário o alto volume que a cidade e as pessoas produzem.
Cleia confessa ser estressante conviver o dia inteiro com barulho. Buzina. Som alto. Alarme. “Não tem quem agüente.” Quando a pessoa busca o silêncio, criando o vazio, ela estabelece um espaço propício para receber o que há de genuíno. Para Weber, é em momentos como esses que a pessoa desestressa e a criatividade aflora. Encontrar um lugar longe da tempestade de decibéis é um luxo necessário. “A sua mente faz uma festa de boas-vindas quando você é capaz de ouvir a si mesmo”, afirma.
Meditar faz bem ao coração
Interatividade
Você busca o silêncio? Como você lida com ele?
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