Saúde e Bem-Estar

Sinfonia desconcertante

Denise Drechsel
09/10/2005 17:59
denised@gazetadopovo.com.br
O amor é mais forte, mas o ronco do marido realmente incomoda. “Como tenho sono pesado, tento dormir antes dele, e aí a noite passa sem problemas. Do contrário, fico cutucando até ele parar e às vezes não dá muito certo. Quando ele está gripado, então, piora bastante”, conta Núbia Mazzetto, de 25 anos.
Pivô clássico de incontáveis brigas de casais, o ronco é um distúrbio respiratório do sono causado pela obstrução da passagem do ar dos lábios à garganta por vários fatores como excesso de gordura, desvio de septo nasal ou até pela constituição dos próprios órgãos internos como amígdalas e língua.
Recorrente 50% em homens e entre 20% e 30% nas mulheres, é fator de risco para doenças cardiovasculares como hipertensão e derrame. Quem ronca é suscetível a sofrer diferentes distúrbios como a apnéia, que é a parada respiratória por mais de 10 segundos e que pode se repetir várias vezes durante a noite.
“Quando o indivíduo ronca, faz um esforço que fragmenta o sono, provoca descarga de adrenalina e altera o chamado sistema nervoso simpático. Isso causa taquicardia, paradas ou redução do ritmo respiratório”, explica o neurologista Geraldo Nunes Vieira Rizzo, especialista em Medicina do Sono e presidente da Sociedade Brasileira de Neurofisiologia Clínica.
Como do ponto de vista subjetivo o ronco pode passar despercebido para quem o tem – o protagonista, na maioria dos casos, não acredita na intensidade e timbre do próprio ronco e não são raros os casos em que a família precisa gravar a sua performance para convencê-lo dos insuportáveis ruídos noturnos –, é comum que quem sofra do problema postergue a ida ao médico.
“Antigamente se acreditava que o ronco era ruim apenas para quem dormia junto. Até porque é bastante comum e, qualquer pessoa quando está resfriada tende a respirar pela boca e roncar. Hoje se sabe que o prejuízo da qualidade do sono causado pelo ronco reflete na qualidade de vida. A pessoa fica, por exemplo, mais irritada durante o dia e tem alterações na memória”, alerta a psiquiatra e neurofisiologista Gisele Minhoto, especialista em sono.
Tratamento
O ronco tem remédio e o profissional habilitado para aplicá-lo é o médico especialista em sono. “É necessário descobrir a causa do distúrbio em cada caso para adotar o recurso mais adequado”, afirma Vieira Rizzo. “Existem medicamentos, diversos tipos de aparelhos e cirurgias. Às vezes, só o fato de emagrecer alivia o problema”, continua.
Dentre os equipamentos mais conhecidos está o CPAP, cuja sigla em inglês significa “Pressão Aérea Positiva Contínua”, com modelos de acionamento automático ou de funcionamento contínuo, que empurram o ar quando a pessoa deixa de respirar. A pessoa passa a noite inteira com ele.
Quanto aos medicamentos, sua função é enrijecer a musculatura para impedir o terreno muscular propício para as vibrações sonoras. “Tudo o que causa relaxamento na musculatura piora o ronco: a flacidez na terceira idade e na menopausa, a bebida… É por isso que o ronco ocorre normalmente na fase REM do sono, período de maior relaxamento”, afirma Gisele Minhoto.
Posição
Deitar de barriga para cima costuma desencadear o ronco, por causa da posição da língua, que tomba com a gravidade e obstrui a passagem do ar na faringe. Mas, dependendo do acúmulo da gordura e da causa do distúrbio, a pessoa pode roncar até de lado.
Exame
A qualidade de sono é mapeada por meio do exame de polissonografia. A pessoa passa a noite conectada a eletrodos que avaliam a parte cerebral, cardíaca e de movimentos do corpo. “É possível ter uma noção do que está acontecendo com a pessoa e verificar a existência de alguns distúrbios, até alguns sinais de depressão”, diz Gisele Minhoto, especialista em sono.