Saúde e Bem-Estar

Transplantes: da dor à esperança

Denise Drechsel
24/10/2005 00:58
denised@gazetadopovo.com.br
Depois de esperar três anos na fila da Central de Transplantes do Paraná e passar por duas tentativas frustradas por causa de incompatibilidade, o bancário Alseu Abrahao Cardoso, 55 anos, recebeu rim e pâncreas de uma moça de 22 anos morta em um acidente. Ao se restabelecer, quis conhecer a família da doadora. “Os médicos disseram que era necessário esperar seis meses antes do contato. Depois de dois anos e meio encontrei a mãe dela. Foi inesquecível”, conta.
Histórias como a de Alseu mostram quão delicada é a experiência de dar e receber órgãos. A técnica, hoje bem-sucedida em cerca de 75% dos casos, coloca os envolvidos frente a frente com a morte. De um lado, o receptor, cujo transplante é a chance de permanecer vivo. Do outro, a família do doador, que sofre com a perda do ente querido e se depara com uma oportunidade ímpar de desprendimento. E nem sempre o relacionamento entre eles é recomendável. “Num primeiro momento não oferecemos os dados a nenhuma das partes. Depois de um certo tempo, no mínimo seis meses, se existe insistência ou do receptor ou da família do doador, fazemos uma consulta e até intermediamos telefonemas entre eles”, explica o médico Júlio Coelho, professor titular de Cirurgia da UFPR e chefe do serviço de transplante hepático do Hospital de Clínicas do Paraná. “Mas respeitamos caso uma das partes tome a decisão de não se comunicar. Não é saudável se um começa a querer proteger ou conhecer demais o outro.”
A longa fila de transplantes no país prova o quanto o assunto ainda precisa amadurecer. Para se ter uma idéia, se durante um ano as famílias de duas das 35 a 40 pessoas que morrem diariamente em Curitiba fizessem a doação das córneas das vítimas, não haveria fila de espera para transplantes desse órgão na capital.
As causas para essa defasagem incluem desde a falta de responsáveis nos hospitais pela identificação de possíveis doadores até a desinformação sobre a diferença entre morte encefálica e coma.
Mas uma tese de doutorado defendida na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) apontou ainda outro aspecto que poderia fazer propaganda negativa da doação. De 139 famílias procuradas após dois anos do procedimento, apenas 69 aceitaram conversar. Dessas, 20% não autorizariam novamente a doação por terem se sentido pouco acompanhadas pelos profissionais de saúde antes, durante e depois do processo.
“Passados dois anos, todas essas famílias ainda queriam conversar sobre o processo de doação e o seu impacto. E muitas delas ainda não tinham isso bem resolvido”, diz a enfermeira do Hospital Albert Einstein, Bartira de Aguiar Roza, autora da tese. “Elas também tinham vontade de ver o outro ou, no lugar de conhecer, saber se o órgão está bem, pois é uma parte da pessoa querida que vive em outro alguém. Elas querem fazer o bem sim, mas a relação de continuidade também está muito presente. Esse conhecimento nem sempre é positivo para as partes. É um assunto ainda em discussão.”
Marlene Tanan, 42, mãe da moça que doou os órgãos à Alseu, ficou emocionada a conhecê-lo. “Preparei várias coisas para falar, mas no momento conseguimos apenas nos abraçar e chorar. Ele pôde mudar por causa do transplante, estava muito mal antes. E então lembrei da minha filha que insistiu que doássemos seus órgãos caso morresse. Valeu a pena não me opor. É uma alegria saber que existe algo da minha filha vivo em outra pessoa.”