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O corpo vira a metade do que era como num passe de mágica. Com a parte descartada vão embora os quilos extras e a ameaça ao amor próprio. Claro que junto tiveram de ir também os brigadeiros de colher em frente à tevê, pratos fartos, quilos e mais quilos de guloseimas – afinal, não caberiam no novo estômago, reduzido pela cirurgia bariátrica. Até o chocolatinho que servia de consolo na hora do “chega pra lá” do namorado (a) teve de ser jogado fora. Um preço considerado justo por quem sempre quis mudar a silhueta.
O fato é que a leveza conseguida depois da cirurgia é fácil de ser mantida. Principalmente porque ela depende de uma mudança radical de comportamento. Há que se desfazer dos hábitos alimentares antigos e aprender outros novos, mais saudáveis. “A euforia para se fazer a cirurgia é tão grande que se aceita qualquer condição para ser magro e acaba não se escutando nada do que se fala. Por isso é tão importante a preparação antes e, principalmente, depois da cirurgia”, comenta Mariana Garcez Pereira de Almeida, psicóloga clínica, especialista em transtornos alimentares. Segundo o professor de clínica cirúrgica da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Luís Sérgio Nassif, não é indicado operar alguém que não tenha passado por uma preparação minuciosa de uma equipe interdisciplinar, com psicólogo, nutricionista, endocrinologista e cardiologista, além do cirurgião bariátrico. “E quando se fala em preparo, trata-se de um processo que pode demorar meses, até que o paciente esteja no ponto certo para operar. O problema é que há profissionais – e não se fala aqui de qualidade técnica – que não exigem esse acompanhamento e muita gente, com a ansiedade de operar para emagrecer, acaba se sujeitando a situações de risco e os resultados estão fadados a serem ruins”, diz.
Justamente por ser de grande porte, a cirurgia bariátrica não é inócua. Em termos físicos, segundo Solange Cravo Bettini, responsável pelo setor de cirurgia bariátrica do Hospital das Clínicas, há 1% de chance do grampo abrir; 1% dos pacientes pode sofrer de embolia pulmonar (risco de qualquer cirurgia); e 3 a 5% podem ter úlcera. “Por outro lado, três em cada 100 pessoas morrem em decorrência da obesidade numa fila de espera pela cirurgia de redução de estômago. Na cirurgia, esse risco é de 1%. Ou seja, é mais arriscado ser obeso do que fazer a operação”, destaca.
Não há, no entanto, como dissociar a obesidade dos aspectos psicológicos. A comida que será restringida logo após a cirurgia serviu quase sempre de consolo para os problemas engolidos até então pelo paciente. Em muitos casos há uma compulsão alimentar instituída. A psicóloga Mariana de Almeida ressalta que algumas vezes o sujeito mal preparado substitui a compulsão alimentar por outra compulsão como o alcoolismo (já que o líquido é melhor aceito), por compras (a nova forma possibilita o consumo de roupas prontas, por exemplo), exercícios físicos e até pelo emagrecimento (há casos de anorexia em seguida de uma cirurgia dessas). “Essas pessoas que encontravam prazer imediato na comida deixam de ter esse apoio e acabam buscando outras fontes para esse prazer”, explica. Ela ainda destaca os riscos de quadros depressivos após a cirurgia, uma vez que alguns pacientes têm dificuldade de acompanhar as mudanças corporais sofridas, já que, normalmente, a perda de peso é muito rápida. “Sai a gordura, fica a pele flácida e a frustração após a cirurgia – que gera expectativas de transformações fundamentais na vida – pode evoluir para casos de depressão”, diz Mariana.
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