Era uma tarde de chuva quando a vi. O local, uma serralheria, não era o mais adequado. Mas ela estava lá, com seu pelo marrom, as extremidades pretas e os olhos. Ah! os olhos! Eram de um azul profundo, expressivos, grandes e belos. Era, sem dúvida, uma siamesa legítima.
O dono concordava em dar-me aquele filhote, certamente antevendo uma vida mais confortável e sem sacrifícios que ela teria e ele não poderia propiciar-lhe. O duro foi convencer Lídia, minha mulher. Cedeu em me acompanhar, “… só para ver”, como ela disse. Foi ver e se apaixonar. Levamo-la no mesmo dia. No começo, era arisca e assustada. Pulava para todos os lados dentro do carro, parecendo querer sair através dos vidros. Em casa, após receber carinho, boa alimentação e uma cama para dormir, acalmou-se. Demos-lhe o afável nome de Mima, corruptela de outro, maior.
Nossa relação ia muito bem, só nos desentendendo quando resolvia capturar algum dos coloridos passarinhos que pousavam em nosso frondoso bouganville que, no verão, se cobria inteiramente com belas flores azuis.
Foi na véspera de Natal que a quase tragédia aconteceu. Peru dourando no forno, cristais polidos, mesa sendo posta com enfeites natalinos, aquele capricho todo, como só Lídia sabe fazer. Cadê a Mima? A pergunta ficou sem resposta pelas próximas 16 horas. Procuramos por todos os cantos: no muro junto ao bouganville, seu local predileto e de onde podia acompanhar o movimento da rua, sem ser vista e sem se expor – até gatas tem um pouco de voyeur –; embaixo da cama da Paula, minha filha; na adega, sob a escada, onde descobrira dias antes um lugar dos mais recônditos para se esconder. Íamos à porta para ver se ela já resolvera voltar, mas nada.
O tempo passou e nem uma pista da fujona. Preocupação tomando conta de todos, notadamente de Lídia. O jantar tinha de ir para a mesa. Era o ponto alto daquele dia, era Natal e não poderia mais ser postergado. Tínhamos que aparentar alegria, afinal era a comemoração do nascimento de Jesus. O clima era de contida tristeza. Logo hoje, na véspera de Natal ela fora fazer isso! Porque não escolhera outro dia qualquer?
A madrugada avançava e, nesta altura, até Fernanda, filha casada, em viagem a Porto Alegre, já estava a par e ligava em intervalos para saber do andamento das buscas. Concluído o jantar, louça posta para lavar, cozinha arrumada, fomos tentar dormir.
Lídia não pregou o olho uma única vez, imaginando as coisas mais terríveis: rapto, seqüestro, atropelamento, picada por aranha venenosa, devorada pelos cães, tudo o que de pior pudesse haver! Sete horas da manhã já estavamos a postos para iniciar buscas pela redondeza.
Já estávamos voltando, quando nossos vizinhos gritavam e acenavam por sobre o muro, junto à piscina. Acharam-na no lado externo, junto a este muro – com 6 metros de altura, obstáculo intransponível para a volta de nossa fujona.
Embrenhei-me, aclive acima, na macega alta. A vegetação densa, não permitia andar em linha reta ou ir por onde queria. Pior ainda, não se podia ver o chão ou, menos ainda, a procurada gata. Os ruídos dos gravetos quebrados, por certo, assustavam-na e faziam com que ficasse quieta e talvez mais se afastasse. Parei, chamei-a pelo nome, até que ela veio, de mansinho e assustada.
Foi este, afinal, o nosso presente de Natal.
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