Saúde e Bem-Estar

Bullying: o mal menosprezado

Adriana Czelusniak - adrianacz@gazetadopovo.com.br
20/09/2009 03:12
Bully
Tidos como valentões, os chamados bullies (quem pratica o bullying) são, antes de tudo, vítimas. Em vez rotulá-los como “garotos-problema”, deve-se tentar compreender os motivos daquela criança ou adolescente estar mandando sinais agressivos, conforme conta o psicólogo Josafá Cunha, mestre em Edu­­cação e pesquisador da Uni­ver­­sidade Federal do Paraná (UFPR). “Vale descobrir como é a família dessas crianças, se há muita briga em casa, se elas apanham. Se esse comportamento é repetido na escola, isso deve ser encarado como um sinal de alerta e não de mau-comportamento.”
A vítima de hoje tem grandes chances de se tornar o bully de amanhã. Se não houver intervenção, os apelidos, chacotas e brincadeiras violentas podem se fortalecer e comprometer a aprendizagem de valores humanos, como a tolerância e solidariedade. Estudos concluíram que esses jovens crescem com grandes chances de praticar a violência doméstica e o assédio moral no trabalho, além do risco maior de se envolverem com drogas e crimes.
Combate
O bullying se dá por ações repetitivas que podem ser tão sutis, que ocorrem sem que os adultos percebam. Por isso, mais do que conferir notas e presenças no boletim, os pais precisam estar envolvidos com a rotina e acompanhar a socialização da criança, saber se tem amigos, quem são eles, quem é a família e como se comportam.
“Colocar câmeras no pátio e pintar pombas brancas nos muros não resolve o problema. Os pais devem reforçar laços com os filhos, se informar sobre como a escola lida com a resolução de conflitos e não esperar acontecer o problema para só então pensar nele”, diz Cunha.
Depoimento
Cleide*
*Nome trocado para preservar a identidade da entrevistada.
Meu filho, de 15 anos, sempre foi um menino querido, educado e alegre. Mas, no ano passado, começou a agir de maneira estranha. Na volta da escola, chegava ofegante em casa. Nos primeiros dias, minha mãe percebeu alguma coisa diferente nele e me disse que algo deveria estar acontecendo. Mas achei que não havia nada de estranho pois ele sempre gostou de correr e fazer exercícios. No final daquela semana, estávamos lanchando na cozinha, quando ele começou a levantar as mãos e logo caiu no chão, se contorcendo, tendo o que depois descobri que era uma crise convulsiva. Desesperada, liguei para o médico, relatando o que havia acontecido. Fomos imediatamente para o hospital e no caminho ele foi vomitando. Depois de atendido, ficou em observação, e o médico pediu para que eu tivesse uma conversa franca com o meu filho, pois achava que algo tinha provocado essa crise convulsiva. Conversamos e ele me contou que há duas semanas estava sendo ameaçado. Ele estava passando o recreio trancado dentro da sala de aula, com medo de uns meninos. O mesmo acontecia na saída e era por isso que ele voltava correndo. Ouvir aquilo foi o fim para mim, ainda mais porque ele disse que não havia nos contado porque estávamos passando por outros problemas em casa e ele não queria nos preocupar.
Naquela semana, os meninos o descobriram na sala de aula durante o recreio, e o agrediram, fazendo o conhecido “chazão” – quando levantam alguém pela cueca até rasgá-la.
O médico diagnosticou meu filho com síndrome do pânico, e ele passou a tomar medicação. Outro médico afirmou que era o bullying o que tinha desencadeado o problema psicológico e disse que teríamos que continuar observando, pois poderia ter algum mais algum efeito. Não demorou muito para percebermos a mudança. Ele, que sempre foi um aluno bom em notas, está sempre à beira da reprovação, precisando de aulas particulares. Na época, fomos até a escola e contamos tudo pra diretora e coordenadora, mas elas não ajudaram. Ele acabou mudando de escola, teve outra crise convulsiva e se diz constantemente com medo de gangs. Já faz um ano que o problema aconteceu, mas ainda não sabemos bem como agir e ele não consegue se sentir seguro.
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Agradecimentos
Modelo Pedro H. Spack que posou para nossa foto.
Agência VModel, (41) 3338-9999 e site www.vmodel.com.br