Saúde e Bem-Estar

Castigo educa?

Adriana Czelusniak - adrianacz@gazetadopovo.com.br
14/06/2009 03:10
Historicamente, castigar, surrar ou educar com “mão firme” fez parte da educação de muitas gerações. Tais atos também foram incentivados por ditos populares, como o provérbio russo que diz: “Ama as crianças com o coração, mas educa-as com a tua mão” e o grego: “Quem não foi bem castigado com a vara, não foi bem educado”. Ainda hoje, em algumas culturas, as agressões físicas e psicológicas são aceitáveis até certo nível, mas isso está mudando. Já são 23 os países em que leis proíbem a punição corporal. Em outros casos, como no Brasil, maus-tratos são reprimidos.
A psicóloga comportamental Lidia Weber, pós-doutora em Desenvolvimento Familiar, ajuda a entender a diferença: “A punição abusiva ou os maus-tratos ocorrem quando causam danos físicos à criança ou adolescente e podem ocorrer sem ligação com o comportamento”.
O castigo não deve ser empregado como uma punição. Cláudio Rotenberg, psicólogo e psicoterapeuta infantil e de adolescentes, defende o castigo como forma de colocar limites para ajudar os pequenos a se darem conta da realidade. “Se o castigo se torna uma punição física, o que a criança recebe é medo, humilhação, ódio e a falta de controle dos pais. Há momentos em que um simples diálogo resolve, em outros é necessário um ‘basta’. O diálogo depende do contexto”, afirma Rotenberg. Lidia complementa o pensamento quando diz que usar a agressividade com os filhos os ensina que problemas podem ser resolvidos com a violência. “A punição física prejudica a autoestima e atrapalha o vínculo afetivo entre pais e filhos. Também associa amor e dor, e a criança aprende que ‘quem ama tem a permissão de machucar’, aumenta o risco para depressão e ansiedade e há a transmissão intergeracional, ou seja, os filhos também baterão em seus filhos no futuro”, afirma.
Coerência
Antes do castigo é preciso estabelecer regras claras, coerentes e consistentes. Cada uma pressupõe uma consequência no caso de ser desrespeitada. “Assim, a escolha é da criança ou adolescente, pois ela sabe claramente o que vai acontecer caso não cumpra o estabelecido”, afirma Lidia. Manter sempre as mesmas regras, independentemente do horário ou local em que a família se encontre, e não ceder à pressão dos filhos também é fundamental. O psiquiatra Içami Tiba compara o comportamento dos pais a um jogo de dominó. “Quando impõem algo aos filhos, é como se levantassem uma peça de dominó. Cada vez que precisam falar o não para aquela situação, é como se colocassem mais uma peça em pé. Depois de cinco dominós eles se cansam e cedem. Nessa hora, é como se o filho empurrasse a última peça, derrubando todos os ‘nãos’ anteriores”, diz. O que as crianças aprendem com isso é que vão conseguir o que querem se insistirem bastante, vencendo os pais pelo cansaço.
Compreensão
Dependendo da idade da criança, ela ainda não é capaz de se expressar verbalmente. Quando algo a incomoda, seja uma ocorrência na escola ou problema na família, ela pode demonstrar os sentimentos na forma como se comporta. Aos pais cabe uma postura aberta e compreensiva para procurar compreender a forma como as crianças de expressam. “Antes de querer impedir que tal coisa aconteça, é preciso buscar várias formas de conhecer o significado daquilo. Se a criança estiver usando o comportamento como forma de comunicação e esse sinal for impedido, ele vai aparecer em outro momento ou situação”, alerta Rotenberg.