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Que a maioria dos adolescentes tem seu próprio celular – principalmente os das classes econômicas mais favorecidas – não é novidade. Mas basta uma voltinha pelos shoppings para constatar: crianças cada vez menores passeiam acompanhadas de seus aparelhos.
O pequeno João Victor, 4 anos e meio, tem o seu há seis meses. Sua mãe, a publicitária Juliana Pereira de Souza, 31 anos, acha que o aparelho é uma “necessidade”, já que o filho sempre dorme na casa dos avós, tios e amigos. “Assim, ele pode sempre estar em contato com a gente.” E os telefones fixos? “É uma questão de individualidade, não incomodar os outros. Para ele ter domínio sobre aquilo que deseja fazer naquele momento e não passar pelo aperto de querer ligar e não poder, a gente acabou cedendo”, justifica.
Juliana admite que a necessidade é mais do casal do que do filho: “Quero saber o que meu filho está fazendo, com quem, aonde está.” E conta que a família e os amigos não concordam que a criança deva ter celular tão cedo. “Eles acham que é uma antecipação de fases. Mas se ele já nasceu nesse meio de tecnologia, por que evitar esse contato? As pessoas olham pra gente com um olhar reprovador, mas aposto que em pouco tempo todas as crianças dessa idade vão ter seu celular. É preciso saber usar a tecnologia em favor do crescimento deles”, defende-se.
“O monitoramento parental independe da criança ou adolescente ter celular”, lembra Vera Regina Miranda, mestre em Psicologia da Infância e Adolescência e professora da PUCPR e do UnicenP. Ou seja, saber com quem o filho anda, aonde vai e o que faz sempre foi missão dos pais, com ou sem celular. Quando se trata de uma criança, a psicoterapeuta familiar Eneida Ludgero vai mais longe: “É muito questionável, porque essa criança precisa estar sob cuidados, não pode estar sozinha.”
Ambas enumeram diversos aspectos negativos do contato precoce com o aparelho, mas afirmam que todo avanço tecnológico tem suas vantagens.
Na casa da professora Lucila Maris Broetto, 47 anos, e do designer gráfico Clauber Carvalho, 46, celular é coisa de adulto. O filho mais velho, Moreno, 23, comprou o próprio aparelho aos 20. Konrado, 9, e Liz Amora, 4, ainda não se ligaram na tecnologia. Aos 11, Nathan já pediu o presente para a mãe. Ela explicou ao menino que no momento não há necessidade, pois ele ainda não sai nem vai à escola sozinho e, se um dia precisar, pode emprestar o dela. “Também não fico demonizando nada. Digo que quando ele crescer e estiver na época certa, vai ter um celular.”
Aliás, Lucila controla o acesso das crianças também ao computador e à tevê. “Senão eles perdem outras coisas da vida, a proximidade, a conversa.” Mas ela não se engana: sabe do fascínio que a tecnologia exerce sobre os pequenos e às vezes não encontra seu próprio celular em casa. “Eles pegam para jogar”, conta.
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