Saúde e Bem-Estar

Como lidar com a violência

Érika Busani
20/02/2006 01:36
erikab@gazetadopovo.com.br
Por mais que os pais amem seus filhos e desejem para eles uma vida sem sobressaltos e infelicidade, sabem o quanto isso é impossível. O melhor caminho, então, é instrumentá-los para que possam enfrentar seus revezes da melhor maneira. Quando o assunto é violência urbana, é preciso dar-lhes condições de enfrentar a realidade, sem meias palavras, mas também sem partir para o alarmismo.
Para o major Douglas Sabatini Dabul, instrutor e membro da coordenação do Programa Educacional de Resistência às Drogas e Violência da Polícia Militar do Paraná (Proerd), há dois caminhos para a criança criar um sentido de autodefesa: passando por uma situação desagradável ou através da orientação dos pais. “A criança confia e acredita no que o pai diz. Falar com clareza, sem esconder, é a melhor forma de educar”, diz o policial.
E falar claramente não se restringe a estratégias de ação frente às situações de risco, conforme a psicóloga Mariza Bregola de Carvalho, terapeuta familiar. “Os pais devem refletir com os filhos alguns temas envolvidos nesta questão, como a desigualdade sócio-econômica – detectada e percebida muito cedo pelas crianças –, valores morais, direitos humanos, preconceitos e solidariedade.”
Desde muito cedo é possível introduzir esse tipo de conversa, que pode ser desencadeada por uma situação observada pelo filho: uma criança pedindo esmola numa esquina, um adulto dormindo sob uma marquise, uma notícia sobre violência vista na tevê. “A reflexão, através do diálogo informal, gera conhecimento e compreensão. Desta forma os filhos entram em contato com a realidade social na qual estão inseridos”, diz a psicóloga.
Deve-se tomar cuidado, no entanto, para não apavorar os filhos. “Se os pais apresentam um ‘discurso catastrófico’ no qual todo o mal está fora de casa e no outro, ou um ‘discurso alarmista’, ressaltando apenas os aspectos perigosos da sociedade, inevitavelmente os filhos ficarão inseguros e com medo”, alerta Mariza.
A pediatra Luci Pfeiffer, vice-presidente do Departamento Científico de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria, recomenda que os pais não banalizem o assunto. “Quando os pais falam que a violência é normal, que o mundo é assim, a criança vai achar que tem direito de ser violenta quando algo não a satisfaz.”
Para ela, os pais devem dizer que a violência existe, mas não é normal, que vem das pessoas que não tiveram o cuidado e atenção quando crianças, que não têm valores morais.
Cenas violentas na tevê, para Luci, deveriam ser evitadas até os 7 anos. “Abaixo disso a criança não consegue elaborar essas situações. Se os pais perceberam que uma cena ou conversa impressionou a criança, é bom comentar.”