Saúde e Bem-Estar

Compra, mãe?!?!

Érika Busani
28/05/2007 00:32
A clássica cena de birra ou escândalo em uma loja ou supermercado assombra pais de crianças pequenas. Alguns acham que é apenas uma questão de tempo, uma experiência inevitável. Mas não precisa ser assim.
“As crianças hoje têm necessidades muito estranhas. Influenciadas pela mídia, são catequizadas para ter as coisas. Não sei como os pais não acham estranho que uma criança de 5, 6 anos tenha necessidade de possuir um celular”, questiona o psicólogo Naim Akel Filho, professor de neurociência da PUC-PR.
Ele lembra da infância de antigamente, quando as necessidades eram brincar e ser protegido e cuidado pelos pais – apenas. “Não sabemos ainda no que essa mudança vai dar, mas tenho sérias dúvidas de que contribua para uma sociedade melhor. Não vejo que elas sejam mais felizes do que fomos.”
É verdade que as crianças estão em um contexto consumista, uma sociedade – e um mundo – onde o ‘ter’ assume proporções maiores que o ‘ser’. Porém, não dá para negar que os pais têm sido bastante permissivos, deixando os filhos desprotegidos ante tanta informação, tantas mensagens que empurram as crianças em direção ao consumo voraz – quando não são eles mesmos a incentivar esse comportamento.
“Dar tudo o tempo todo é como dizer para o filho: ‘você pode tudo!’ e essa não é a realidade que a criança vai encontrar no mundo”, alerta a psicóloga e educadora brinquedista Fernanda Gorosito, coordenadora do Espaço de Desenvolvimento Criança em Foco.
A curto prazo, diz a psicóloga, o excesso de brinquedos, por exemplo, pode trazer como conseqüência a superficialidade na relação com o brincar. “Não será nem possível brincar com todos. O brincar tem função estruturante para a criança, o que acontecerá é que ela se estruturará superficialmente também”, diz.
Além disso, ao ganhar sempre o que pedem, os pequenos não desenvolvem a capacidade de resistir às frustrações, e não saberão como lidar com situações adversas. “A frustração é necessária e ao contrário do que pensa a maioria dos pais, está relacionada com afeto. Se a criança passa por uma frustração ao lado dos pais com seu apoio e acolhimento, será muito mais fácil enfrentar as próximas”, lembra Fernanda.
O que para muitos pais pode parecer um gesto de amor – a satisfação imediata dos desejos de seus filhos – transforma-se numa armadilha que no futuro vai interferir na forma como aquele adulto vai lidar com a vida. Esperar é fundamental no desenvolvimento das crianças. “Desejar é a essência do ser humano. Parar de desejar equivale à morte psíquica”, afirma. Ou o que os psicólogos chamam de “pulsão de morte”, que é a inércia, quando não se tem o que querer, desejar, conquistar. E aí estamos perto da morte. Já a “pulsão de vida” nos impulsiona, nos faz desejar, querer, conquistar.
Para não chegar a esse extremo, o pensamento dos pais deve voltar-se à prevenção (veja box). “Podemos retomar o controle da situação com o retorno a uma vida mais simples, menos voltada aos valores materiais. O ser humano é um ser afetivo, a parte humana não pode ser substituída pela material”, acredita Akel Filho.
Érika Busani
erikab@gazetadopovo.com.br