Saúde e Bem-Estar

Criança não se terceiriza

Érika Busani
01/04/2007 18:58
erikab@gazetadopovo.com.br
Razões mais que suficientes para levar educadores a uma preocupação comum: com a mulher integrando o mercado de trabalho e a exigência de dedicação e tempo sofridas nesse quesito – tanto para elas quanto para eles – os filhos muitas vezes passam a ser educados por terceiros: escola, babás e avós. “Trabalhamos muito e queremos do fundo do coração que alguém dê conta do que é nosso papel. Às vezes, queremos colo, não queremos dar colo a ninguém”, observa a assistente social Cida Nogarolli. Idealizadora do projeto “Isto é Comigo – Construtores de Soluções”, Cida chama a atenção para a necessidade dos pais assumirem e priorizarem seu papel. “É preciso haver um equilíbrio, há horas em que devemos conscientemente abrir mão de outras atividades para ficar com os filhos, a família. Tem um coisa que não dá para abrir mão, que é a família.”
Para a pedagoga Tânia Stoltz, doutora em Psicologia da Educação, ter filhos hoje deve ser uma escolha consciente. “Os pais precisam ter uma noção melhor do que é ter filhos e pensar: que tempo temos para ficar com essa criança?”
Como normalmente não têm esse tempo – e chegam tão cansados em casa que não conseguem estabelecer uma relação de qualidade com as crianças – os pais esperam que a escola assuma o papel que é deles. “A escola sente muito a ausência dos pais. Seu papel é trazer conteúdos e proporcionar o processo de desenvolvimento humano. É na escola também que a criança vai fortalecer seus vínculos. Mas se a criança não conseguir estabelecê-los em casa, na relação familiar, no ambiente escolar não vai conseguir”, diz Cida.
Muitos pais, para Tânia, não se interessam em transmitir valores e estabelecer limites. “Alguns deles acham que seu papel é apenas facilitar a vida das crianças, provendo as necessidades básicas e desconsideram que entre essas necessidades está a de lidar com o mundo real. O contexto basicamente permissivo não é o ideal, quem sofre com isso é a criança, quando começa a perceber que o mundo lá fora não é tão gratificante quanto o ambiente familiar.”
Há pais inclusive que deixam ordens de gratificação imediata dos desejos da criança para avós e babás, conta a pedagoga. “Não é possível nem adequado satisfazer a criança em tudo. É preciso que ela aprenda a esperar, a superar dificuldades. Cabe aos pais estimulá-las a tentarem novamente quando desistem com facilidade.”
Para Cida, a tranqüilidade suprema é poder falar para um filho adolescente: “Meu filho, te ensinei tudo que é certo e errado, o mundo lá fora vai te fazer muitas ofertas, agora é por sua conta e estou aqui quando você precisar.” E, para isso, tempo e qualidade na relação são fundamentais.