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Quando pertence à classe econômica baixa, a criança assume responsabilidades muito cedo: cuida dos irmãos menores, realiza serviços domésticos, não tem tempo para brincar. Nas mais abastadas, não é assim tão diferente: com agenda de mini-executivos, os pequenos precisam dar conta, além da escola, das inúmeras atividades em que os pais os colocam. “Me dói ver como se brinca pouco, o quanto isso foi tirado das crianças”, diz a educadora brinquedista Maria Cristina Pires, que criou e coordena o Clube da Brincadeira, na Escola Anjo da Guarda, em Curitiba. O espaço, uma brinquedoteca, é oferecido aos alunos como atividade extracurricular.
O conceito de brinquedoteca surgiu nos anos 30 em Los Angeles, nos Estados Unidos, logo depois da quebra da bolsa de Nova Iorque. Com o empobrecimento da população, grupos de crianças começaram a se organizar para saquear lojas de brinquedos. A solução foi o estado criar as brinquedotecas, que inicialmente funcionavam como bibliotecas, com empréstimo de brinquedos.
A falta de oportunidade e espaço para o livre brincar nas grandes cidades mudou esse conceito nas décadas seguintes, conforme a assistente social Ingrid Fabian Cadore, educadora brinquedista, fundadora e coordenadora da brinquedoteca da clínica interdisciplinar da Associação Serpiá. As brinquedotecas viraram então espaço para o brincar espontâneo, onde um educador brinquedista media e apresenta novas brincadeiras às crianças. Novas para elas, porque as que mais fazem sucesso são as antigas, daquelas de brincar ao ar livre, sem precisar de brinquedos.
Para quem acha que brincar é perda de tempo, Ingrid aponta pesquisas que comprovaram seu efeito na resiliência – capacidade de resistir e superar a dor e o sofrimento. “Brincar, contar e ouvir histórias, o convívio com o belo através da arte e as comemorações são as quatro atividades que têm maior efeito de resiliência. As boas lembranças são o recurso mental que usamos quando precisamos sustentar a esperança. Para ter esse efeito, é preciso o encantamento, senão a mente deleta.”
A brincadeira também socializa e prepara para vida adulta. “É quando a criança tem a oportunidade de aprender a negociar, perder, ganhar. Quem não brinca não aprende nada de si, não sabe o que o motiva, quando chega no vestibular, não sabe que carreira escolher. Também não aprende a trabalhar em equipe, seguir regras e lidar com as pessoas”, enumera Maria Cristina.
Serviço: De 17 a 21 julho, a Associação Brasileira de Brinquedotecas e a Associação Serpiá promovem em Curitiba o curso de Formação de Educadores Brinquedistas e Organização de Brinquedoteca. Informações fones (41) 9972-3122 e 3015-2045.
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