Saúde e Bem-Estar

Depressão infantil é confundida com manha, preguiça e desatenção

Daniela Piva
01/07/2015 11:42
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Oitenta mil crianças são diagnosticadas com quadros depressivos por ano no Reino Unido, de acordo com o National Institute for Health and Care Excellence (NICE). No Brasil, não há dados estatísticos, mas estima-se que 8 milhões de jovens de até 17 anos tenham o distúrbio. O transtorno depressivo em crianças tem muitas nuances, tornando-se difícil reconhecer os sintomas e diagnosticar corretamente a doença.
Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, publicado pela American Psychiatric Association (APA), é preciso identificar pelo menos cinco sintomas listados a seguir, com duração de duas semanas: alteração de humor; reclamações por cansaço; ansiedade; desinteresse em atividades sociais; falta de atenção; distúrbios de sono; perda de energia física e mental; insatisfação consigo mesmo; sentimento de rejeição; distúrbios de peso; dores na cabeça, pernas ou na barriga; xixi na cama ou eliminação involuntária das fezes; condutas antissociais e destrutivas.
Para o diagnóstico preciso, consultar um psicólogo é imprescindível. Em Curitiba, na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o Núcleo de Prática em Psicologia conta com um ambulatório dedicado ao atendimento de crianças que apresentem características de depressão ou ansiedade. Conversamos com Patricia Guillon Ribeiro, coordenadora do ambulatório:
1. Quais são os sintomas de depressão e ansiedade em crianças?
Os sintomas depressivos são semelhantes, muitas vezes, aos apresentados pelo adulto. É comum que a criança depressiva observe o mundo ao seu redor e a si mesma de uma forma pessimista, mais negativista. Ela tem dificuldades para interagir com os pares, favorecendo o isolamento social. Muitas vezes, ela pode optar por atividades que possa fazer sozinha como forma de evitar o contato social.
Além disso, ela tem tendência a identificar dificuldades em tudo aquilo que lhe é apresentado. Isso pode comprometer, inclusive, o rendimento escolar. Observa-se o choro frequente e aparentemente sem motivo, dificuldades para dormir ou dormir muito, por exemplo. Distúrbios alimentares também são comuns. Pode apresentar irritabilidade e demonstrar sentimentos de inutilidade ou de culpa.
Já a ansiedade, apesar de comprometer a vida da criança tanto quanto a depressão, se apresenta de outra forma. Entre os transtornos emocionais da infância, os de ansiedade são os mais frequentes e os mais deteriorantes. Alguns comportamentos comuns que podem ser observados: medo ou preocupação frequente relacionado ao desempenho, medo do desconhecido, de doenças ou da morte. Queixas somáticas sem causa física também são comuns, além do isolamento social.
2. Como os pais e outros familiares devem trabalhar com essa situação?
As crianças que apresentam os comportamentos relatados (ou que os pais desconfiem dos quadros descritos) precisam de ajuda especializada. Os transtornos de ansiedade e depressão, se não tratados ainda na infância, podem comprometer o desenvolvimento, gerando comprometimentos importantes para o adulto.
Além dos familiares, as escolas também podem observar mudanças no comportamento da criança e sugerirem aos pais a busca por ajuda. O psicólogo é o profissional adequado para intervir nesse quadro.
3. Como acontece o diagnóstico?
No Ambulatório de Depressão e Ansiedade Infantil, a avaliação é feita a partir de uma entrevista inicial com os pais e, em seguida, com a criança. São utilizadas estratégias lúdicas para auxiliar a criança no relato da própria percepção a respeito de suas emoções e comportamentos. A escola também poderá ser contactada, caso seja necessário, como forma de coletar mais informações a respeito do contexto no qual a criança está inserida, além de observações a respeito do comportamento disfuncional daquele paciente.
4. Como são as sessões?
Os atendimentos têm por objetivo auxiliar a criança a identificar suas emoções, seus pensamentos e comportamentos, favorecendo a percepção da disfuncionalidade dos mesmos. A princípio, ela tem dificuldade para discriminar as emoções e a intensidade com que as sente. A percepção e a diferenciação dessas emoções auxiliam a criança a perceber a possibilidade de controle e mudança.
O mesmo acontece com os pensamentos. Ao longo do processo de tratamento, o terapeuta busca auxiliar a criança na identificação dos pensamentos que acompanham aquelas emoções. Os pensamentos explicam as emoções e podem ser modificados na medida em que a criança consiga buscar evidências a respeito da veracidade. Nessa busca, pretende-se auxiliá-la na distinção de que as suas percepções podem ser vistas e construídas de outra forma, e que palavras como “nunca” ou “sempre” são diferentes da expressão “algumas vezes”.
Ela é, também, estimulada a elaborar interpretações e avaliações da sua realidade de maneira menos negativa e mais próxima da realidade. Além disso, estratégias para a solução de problemas e conflitos são trabalhadas para que ela possa perceber-se com habilidades adequadas para resolver situações em que pensava ser incapaz.