Saúde e Bem-Estar

Diabete infantil: como conviver

Érika Busani
30/04/2007 00:16
Aos 3 anos, o pequeno Marco Aurélio voltou a fazer xixi na cama e passou a tomar muito líquido durante o dia. Os sintomas chamaram a atenção dos pais, os médicos Carla e Aurélio Martins, e o exame de glicemia confirmou a suspeita de diabete. “Quando é feito o diagnóstico, a gente passa por uma fase difícil. O início é complicado para todas as mães, independente da profissão”, diz Carla.
Quatro anos se passaram e a mãe acha que o filho lida bem com a situação. “Tem momentos difíceis. Uma vez ele começou a questionar ‘por que Papai do Céu me escolheu para ter diabete?’. Dissemos que ele é um guerreiro, uma pessoa forte.” A família procurou ajuda psicológica para lidar melhor com a situação. “Fui orientada que quanto melhor aceitasse, ia ser melhor para ele.”
Essa é uma verdade incontestável: a reação dos filhos depende principalmente da atitude dos pais. “A criança tira base daquilo que está acontecendo a partir da reação dos pais. Se eles vêem a situação de forma mais tranqüila, ela começa a entender a doença de forma construtiva”, afirma a psicóloga Patrícia Guillon, que trabalha com crianças com diabete.
O acompanhamento psicológico, para Patrícia, é fundamental, principalmente no início. A criança, por se sentir diferente – e a reação dos coleguinhas pode reforçar ainda mais essa sensação – pode ter sua auto-estima abalada, se isolar e até correr o risco de entrar em depressão. “A realidade de uma criança com diabete não precisa ser ruim, mas é diferente, exige uma adaptação. O apoio de um psicólogo poupa alguns conflitos.”
Os pais também devem receber orientação para lidar da melhor forma possível com a nova rotina, os questionamentos e evitar possíveis manipulações dos pequenos. “Os pais não podem esquecer que uma criança precisa ter limites. O maior pecado que a família pode cometer é a superproteção, inclusive na alimentação. Diabete não é motivo de pena, a criança tem as mesmas capacidades da que não tem a doença”, lembra a psicóloga.
A família Martins sabe disso. Marco Aurélio, além da escola, faz judô, nada e joga futebol, brinca e corre o dia inteiro. “É uma vida normal, com alguns cuidados especiais”, destaca a mãe, Carla.
Mães superpoderosas
Conforme a endocriologista Rosângela Réa, é muito freqüente a mãe assumir os cuidados com o filho diabético. “Quando todos se omitem e deixam tudo a cargo só da mãe, ela se sente sobrecarregada e não consegue unir a família.” Quando a família toda se envolve, é melhor. “A mulher gosta de assumir tudo, ter esse papel, mas precisa aprender a cobrar o envolvimento das outras pessoas da família.” Uma avó que saiba medir a glicemia e aplicar a insulina, por exemplo, permite que o neto durma em sua casa.
A puberdade
Período já contubardo, a adolescência costuma ser o pior momento para o controle da diabete. “Os adolescentes se rebelam contra a doença: omitem dados, tentam burlar o tratamento, transgredir a dieta”, alerta o endocrinologista Mauro Scharf.
A necessidade de pertencer ao grupo também pode levá-lo a atitudes perigosas, como beber. “O álcool é extremamente perigoso, causador de hipoglicemia, podendo levar ao coma. Em apenas um episódio, pode haver seqüelas neurológicas, desde déficit de aprendizado até convulsões e epilepsia.” Novamente, o acompanhamento psicológico é de grande ajuda.
Mas nem tudo o que acontece é responsabilidade do adolescente. “Há uma dificuldade de controle maior também porque os hormônios e a instabilidade emocional interferem na glicemia”, observa a endocrinologista Rosângela Réa.
Entenda a doença
Tipo 1
• Há dois tipos de diabete. A mais comum nas crianças é a do tipo 1, doença auto-imune que faz o corpo produzir anticorpos contra suas próprias células produtoras de insulina, hormônio que ajuda o organismo a transformar o açúcar (glicose) em energia para o funcionamento do corpo.
• Ela costuma aparecer subitamente, das primeiras semanas de nascimento até os 30 anos, mas seus picos de instalação são por volta dos 5 anos e na puberdade. Há uma tendência genética, mas não é uma doença hereditária. Sua incidência é de dois afetados em cada mil crianças de 5 a 7 anos.
• Normalmente é desencadeada por um fator ambiental, que pode ser uma infecção, virose ou problema emocional.
• Os sintomas são bastante visíveis e ocorrem abruptamente. A criança urina demais (poliúria), bebe muito líquido (polidipsia), emagrece apesar de comer bem. É comum ela já ter controle dos esfíncteres e voltar a urinar na cama ou levantar três ou quatro vezes durante a noite para ir ao banheiro. Se não for tratada, a criança pode entar em coma diabético em questão de semanas.
Diagnóstico
• É simples, feito com um monitor de glicemia capilar. Com uma picadinha no dedo, em 5 segundos o resultado sai. O diagnóstico é feito se a glicemia de jejum estiver acima de 126 mg/dl ou a aleatória ultrapassar 200 mg/dl.
Tratamento
• Feito com a aplicação de insulina, de forma individualizada. O paciente precisa medir sua taxa de glicose algumas vezes ao dia e aplicar a insulina (injetável) uma ou mais vezes, dependendo do perfil do paciente. Existe, inclusive, tipos diferentes de insulina.
• Há duas formas de injetar a insulina: com seringas ou uma espécie de caneta com uma pequena agulha na ponta, mais precisa e que facilita a aplicação.
• A insulina inalável já está aprovada pela Anvisa e deve chegar ao mercado ainda neste ano. Mas não vai ser liberada para crianças ainda. “É preciso mais tempo de estudos para ver se não há problemas”, afirma o endocrinologista e pediatra Mauro Scharf, diabetologista e sócio-fundador do Centro de Diabetes de Curitiba.
Controle
• A idéia hoje é que se consiga um controle da diabete tão próximo do normal quanto possível. Mas a exigência, segundo a endocrinologista Rosângela Réa, professora do Hospital de Clínicas do Paraná, depende do que a criança e a família conseguem. “No começo, não dá para exigir tanto da família. Quando ela adquire experiência, dá para ir adaptando o tratamento.”
Atividade física
• O diabético pode e deve praticar atividades físicas, mas precisa de uma orientação especial de alimentação.
Complicações
• Se a doença for bem controlada, evita-se que as complicações – relativas à visão, função dos rins e sistema neurológico – ocorram.
Hipoglicemia
• Quando o açúcar no sangue fica abaixo dos 70 mg/dl, pode ocorrer uma crise de hipoglicemia. Os sintomas são tontura, fraqueza, tremores nas mãos, alterações visuais, podendo chegar a perda de consciência e convulsões. Os fatores que podem desencadear à crise são refeições perdidas, excesso de doses de insulina, excesso de atividade física sem consumo de alimentos adequados.
Alimentação
• Crianças precisam de energia para crescer, então não dá para simplesmente tirar o carboidrato de sua alimentação. Desde 2003, a Sociedade Brasileira de Diabetologia adotou o sistema de contagem de carboidratos como padrão para os diabéticos. “Não é necessário fazer uma dieta especial. A criança vai comer normalmente, inclusive em aniversários”, destaca a nutricionista Marina Munhoz da Rocha Balzer, especialista em diabete. O paciente recebe uma lista com os valores referentes a cada alimento e vai saber quanto pode comer por refeição, dependendo de sua idade, peso e atividade física. “As dietas muito restritivas não eram seguidas. Hoje não existe alimento proibido, apenas o controle das quantidades.”
• Comer parcelado faz parte da dieta do diabético, para não correr o risco da hipoglicemia. São pelo menos cinco refeições diárias.
Tipo 2
• A diabete do tipo 2 é mais comum em adultos e tem uma forma insidiosa: a pessoa leva anos para descobri-la. Ocorre quando as células resistem à ação da insulina, mesmo que sua produção seja normal. Os hábitos de vida modernos – obesidade, má alimentação e sedentarismo – vêm aumentando as taxas da doença, que é hereditária. A OMS estima que ela deva duplicar nos próximos 20 anos.
• No Brasil, as crianças ainda não estão obesas a ponto de desenvolver a diabete tipo 2, mas no Japão e EUA, isso já é uma realidade.
Obesidade
• Conforme Rosângela Réa, estudos indicam que a obesidade, fator de risco para diabete do tipo 2, é também para o tipo 1. “A má alimentação, com pouca fibra e muito açúcar parece acelerar a idade de apresentação da doença e aumentar sua incidência.”
Serviço: Marina Munhoz da Rocha Balzer (nutricionista, especilista em diabete), fone (41) 9977-7417, e-mail marina@balzer.com.br / Mauro Scharf (pediatra, endocrinologista, chefe do Serviço de Endocrinologia do Hospital Nossa Senhora das Graças), fone (41) 3029-0400 / Patrícia Guillon (psicóloga, professora da PUC e da Evangélica, atende crianças com doenças crônicas), fone (41) 3352-8303 / Rosângela Réa (prefessora de Endocrinologia do HC, médica do Hospital Pequeno Príncipe), fone (41) 3262-8040.