Saúde e Bem-Estar

Educação para o trabalho

Érika Busani
05/09/2005 02:10
“Tenha um bom apetite!” A frase acompanhada pelo sorriso simpático conquista os clientes, já acostumados com a presença de Vinícius, de 13 anos, na balança do restaurante por quilo dos pais. Longe de configurar trabalho infantil, o estudante cumpre sua função em regime familiar, poucas horas por dia, e é dispensado quando precisa estudar ou tem um programa com os amigos.
Para Margaret Matos de Carvalho, procuradora do Trabalho da 9.ª Região em Curitiba, desde que seja por pouco tempo, sob a vigilância e cuidado dos pais e não interfira nos estudos e momentos de lazer, o trabalho em regime familiar funciona como “fator educativo, faz com que o adolescente tome gosto e se sinta parte do negócio da família”.
Na casa de Vinícius, ajudar no negócio familiar já é tradição. A irmã mais velha, Karine, de 18 anos, fica no caixa desde os 15 e o primo Rahunn, 17, cuida do estacionamento. “Para os mais velhos, é uma oportunidade até conseguirem algo melhor. Para o Vinícius, é um direcionamento, um aprendizado de responsabilidade. Com ele, somos maleáveis, ele tem flexibilidade para não vir quando precisa. Os clientes é que sentem falta nesses dias”, conta a empresária Eneide de Fátima Fragallo, mãe do garoto.
Educação
A transição para o mundo do trabalho é mais suave quando os filhos são educados para ter responsabilidades em casa. “Ter algumas obrigações desde pequenos fortalece a noção de responsabilidade, de pertencimento a determinado grupo”, afirma a psicóloga Janaína Cardoso Caobianco, que trabalha em escolas com adolescentes.
É claro que as tarefas devem estar de acordo com a capacidade da criança, como guardar seus brinquedos, arrumar a cama, enxugar a louça ou tirar a mesa.
A noção de organização também nasce desses pequenos deveres. “É preciso mostrar à criança que se ela não organiza seus brinquedos, nem ela própria consegue brincar”, diz Janaína. A psicóloga lembra de casos de famílias de classe média baixa, em que a mãe tem dupla jornada e as crianças ou adolescentes não fazem nada em casa. “Eles ainda crescem com a percepção de que o outro é obrigado a fazer aquilo”, completa.
Para Vinícius, os primeiros passos rumo à responsabilidade estão sendo produtivos. O garoto conta que consegue conciliar a “vida profissional” com os estudos e ainda “sair bastente com os amigos”.
erikab@gazetadopovo.com.br