Saúde e Bem-Estar

Eles não precisam de agenda lotada

Érika Busani
09/10/2006 02:32
erikab@gazetadopovo.com.br
Escola em período integral + natação + inglês + balé ou judô + música + estimulação não-sei-do-quê. Você certamente conhece uma criança com uma agenda assim. Ela não tem nem tempo para brincar ou ficar em casa e os pais, ansiosos com seu “futuro”, descobrem cada vez mais atividades que ela “não pode deixar de fazer”.
“A idéia dos pais é preparar os filhos ao máximo. Mas nem sempre o máximo que os pais pensam é o que as crianças precisam”, adverte a pediatra e hebiatra Luci Pfeiffer, coordenadora do Dedica – grupo de defesa dos direitos das crianças e adolescentes. Ter tempo livre para brincar, especialmente na primeira infância, é primordial para desenvolver a criatividade, a fantasia e até para ocupar seu espaço em sua casa. “Elas precisam ter um mundinho próprio, até para ter sua individualidade.”
A capacidade de pensar também se constrói através do jogo, da brincadeira. “É muito importante que haja momentos de brincadeiras livres e outros dirigidos por adultos, para instigar a criança a achar soluções, enfrentar desafios e frustrações”, diz a psicóloga e psicopedagoga Úrsula Mariane Simons, professora da Universidade Tuiuti. “Hoje vemos um número grande de crianças treinadas e que não conseguem pensar”, alerta.
Falta de tempo é um dos motivos mais alegados pelos pais para a agenda pesada dos pequenos. “Eles carregam as crianças para lá e para cá, enfrentando trânsito, e dizem que não sobra tempo. Seria muito mais proveitoso se usassem esse tempo para jogar e brincar com as crianças”, alfineta Úrsula. Para ela, colocar crianças muito pequenas em atividades como judô ou balé, por exemplo, não faz nenhuma diferença para seu desenvolvimento, é importante apenas para o ego dos pais.
Luci Pfeiffer aponta outros motivos que podem estar por trás das escolhas parentais: compensar a falta de tempo dedicado aos filhos – algo como “já que eu não posso ficar com você, proporciono atividades para preencher seu dia” – , demonstrar poder financeiro e interesse pelo filho – “invisto tudo nele”. “O maior investimento que os pais podem fazer nos filhos é dar atenção e afeto.”