fernandaroche@uol.com.br
Considero pertinente a discussão sobre a proliferação dos atuais reality shows envolvendo crianças e seus pais, orientados por “superbabás”.
Trata-se de uma atração que, no exterior, vem ganhando a atenção dos telespectadores. Somente nos Estados Unidos, cerca de dez milhões de pessoas assistem ao programa Supernanny para adaptar as técnicas de Jo Frost ao cotidiano delas.
O programa funciona da seguinte maneira: a cada semana, a babá tem a missão de ajudar pais desesperados a lidarem com filhos-problema, por meio de muita psicologia infantil, rígida disciplina e a paciência que tem faltado aos pais. Assim, a babá estabelece regras e limites, além de montar um roteiro para ser seguido pela família a cada dia. A tentativa é de reverter quadros de extrema falta de comando familiar, tornando filhos que não dormem, não comem, batem nos irmãos ou se recusam a ir para a escola em exemplos de conduta e bons costumes, antes que levem seus pais à loucura.
Além da exposição das crianças, o que já seria questionável, vejo que os programas partem de situações extremas que são utilizadas como parâmetros para deflagrar a incompetência dos pais diante do processo educacional de seus filhos e, assim, justificar a invasão desta relação por uma desconhecida. Situações que claramente mostram dificuldades nos vínculos afetivos familiares são abordadas de forma superficial.
Se conseguirmos um olhar mais alongado, percebemos que, em muitos casos, a babá não é uma desconhecida para as crianças, estabelece bons vínculos com ela, mas mesmo que seja sabedora de boas soluções para impasses, uma profissional consciente de sua função não deveria chamar a atenção dos pais diante dos próprios filhos, mas partilhar suas experiências anteriores e atuais, auxiliando na reflexão e incrementando a autoconfiança dos pais em relação às suas atitudes. Parece haver uma distorção do papel de uma boa babá em uma família comum.
Como dizia o pediatra inglês Donald Winnicott, nós, pais modernos, temos um sentido de realização de tarefa ao colocarmos nossos filhos no mundo. Planejamos, esperamos e procuramos ler muito, buscando informações que possam nos transmitir mais segurança na educação de nossas crianças. Sabemos ser capazes de prestar a atenção apropriada a poucos filhos e procuramos estar presentes em todas as etapas de sua criação, fornecendo, assim, um ambiente fértil para seu bom desenvolvimento. Ao mesmo tempo, percebemos que a carreira profissional e os afazeres pessoais também são parte importante no conjunto de nossas vidas. Portanto, será bem-vinda a ajuda de uma babá nas tarefas diárias com a criança, assim como a possibilidade de continuar oferecendo os cuidados e estímulos necessários ao seu progresso, mas de tal forma que não atrapalhe o sentido de responsabilidade para com nossos filhos. De todo modo, a função da babá não é ser uma substituta para a mãe, mas complementar e ampliar o papel que, nos primeiros anos da criança, só os pais desempenham.
Seria interessante que os pais percebessem que seu lugar junto ao filho é inegociável, desde que ocupado por eles, e que as babás precisam ser incentivadas a entender mais do que fazem – ou deveriam fazer – e a aprender a se posicionar de uma forma mais profissional.
Quando pais e cuidadores conseguirem aprender a ver com o olhar do outro e a se comunicar melhor, as relações tenderão a se estabilizar e a se complementar em um interesse em comum: garantir uma segurança maior nas atitudes, uma maior unidade de linguagem, fornecendo um ambiente propício para o desenvolvimento de crianças saudáveis.
Se o olhar for reduzido ao entretenimento, considero mais útil que os pais aproveitem o limitado tempo que lhes resta junto aos filhos tocando-os, escutando-os com atenção, brincando com eles, ou seja, permitindo a oportunidade única de conhecerem-se mutuamente e de estreitarem os laços afetivos que os unem, ampliando sua própria sensibilidade em relação às necessidades de sua criança, em cada fase específica, do que assistindo a situações alheias.
Fernanda Roche é psicóloga especialista em Educação Infantil e coordenadora do Projeto Criança em Foco.
fernandaroche@uol.com.br
fernandaroche@uol.com.br
Colunistas
Agenda
Animal


