Saúde e Bem-Estar

Estranhos defendem menina que sofria bullying

Bruna Covacci
03/11/2015 22:00
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Pelo menos uma a cada três crianças sofrerá bullying na escola. E quem é que pode acabar com ele? Para as psicólogas Joseth Jardim Martins e Raquel Kämpf, autoras do livro Preconceito e Repetição: Diferentes Maneiras de Entender o Bullying, as soluções não se restringem mais à sala de aula e nem apenas ao ambiente familiar. Discutir o bullying deve envolver todos, dos pais e vizinhos aos funcionários da escola.
Um experimento feito pela UpTV, um canal de TV americano, mostra como adultos reagem ao ver uma garota sofrendo bullyng. No ponto de ônibus, a jovem está sentada ao lado de duas meninas mais velhas que ficam dizendo coisas maldosas, como: “Todo mundo diz que você é estranha porque você só lê e não tem amigos” ou “Ouvi dizer que você tentou conseguir uma parte no musical da escola. Falaram que você parece um porco gritando quando tenta cantar”. A menina menor não reage, só demonstra a tristeza.
Diversos adultos defendem a garota menor. Alguns até se oferecem para acompanha-la no ônibus ou chamam-na para sentar perto deles. “Você acha que é bonito falar com alguém assim? Como você se sentiria se estivesse no lugar dela?”, questiona uma mulher. Um homem diz: “Vocês não têm nada de legal para dizer? Só essas porcarias?”.
A recomendação das psicólogas ainda é que os pais conversem com as crianças para empoderá-las: “Escute o que seu filho tem para contar e mostre que você está sempre ao lado dele para apoiá-lo, que ele pode contar com você”.
Abaixo, elas estabelecem mitos e verdades sobre o assunto:
Brigas na sala de aula indicam o bullying
Não é tão simples, e o bullying não se constrói de um dia para o outro. São ações diárias, contra uma pessoa específica, sem um motivo aparente, e normalmente em espaços longe dos professores, não apenas dentro da sala de aula. Quando a escola reconhece que no pátio, no banheiro, na cantina pode estar ocorrendo o bullying, é o primeiro passo para uma intervenção mais direta. “Todas as pessoas que trabalham no ambiente escolar, da pessoa que recebe as crianças na porta do colégio à zeladora ou funcionária da cantina, precisam estar conscientes de que o bullying existe e de que forma eles podem intervir”, afirma a psicóloga Raquel Kämpf.
Repreender a criança é uma atitude válida
Ao ver uma situação de bullying, a presença de qualquer adulto causa uma intimidação na criança agressora, ao mesmo tempo em que dá proteção à vítima. Depois dessa repreensão, o afastamento das crianças é o segundo passo. “O distanciamento é importante até para preservar todas as crianças envolvidas. Mas, não dá para deixar passar, fingir que nada aconteceu ou que é uma situação corriqueira. É importante que depois todos sejam chamados para discutir a situação”, explica a psicóloga Joseth Martins.
Pais da vítima ainda culpam a criança pelo bullying
Infelizmente, de acordo com as psicólogas, pais que culpam seus filhos vítimas pelo bullying ainda é uma situação recorrente. “Por que você não reagiu? Por que não respondeu?” são questionamentos comuns, mas errados. Devido a isso, é muito comum a criança vítima trazer um sentimento de inferioridade, seja intelectualmente ou em relação aos seus aspectos físicos, escolha de gênero ou de sexualidade. Para ajudar, ela precisa de um fortalecimento maior da autoestima e acompanhamento psicológico, tanto quanto a criança agressora.
Pais do agressor podem não perceber as necessidades da criança em casa
Quando a escola convida os pais do filho agressor para conversar, surgem as possibilidades e justificativas que levam a criança a agir daquela maneira. “Ela não é assim porque deseja intencionalmente praticar o bullying, mas muitas vezes ela precisa de mais atenção em casa, sofre de inseguranças e precisa de mais apoio na formação de uma personalidade e uma identidade mais humana”, afirma Joseth.
Construção de identidade humana se faz em casa
Não é bem assim. Embora o bullying possa ser evitado em conversas na família sobre aceitação do diferente, respeito ao próximo, a escola é o ambiente onde as crianças acabam passando a maior parte do tempo. Os professores e profissionais do ensino precisam estar amparados e preparados para lidar com essas questões – a escola tem inclusive uma responsabilidade jurídica com esses casos.
Diminuíram as práticas de bullying nos últimos anos
Infelizmente, não é isso que as psicólogas percebem no cotidiano. Há ainda quem pense que o bullying se resolve somente depois que ele acontece, quando na verdade deveria haver um trabalho preventivo. “O bullying é um fenômeno social, que está dentro de um contexto de violência nas relações cotidianas. Enquanto não entendermos que cada um de nós constrói relações violentas quando desrespeita o outro, quando pensa só em si, nada vai mudar”, explica Raquel.
Doença social
Fazer bullying não se restringe às paredes da escola e nem fica apenas entre as crianças. O papel social dessa prática, segundo a psicóloga Joseth Martins, é servir de termômetro para medir as relações sociais de hoje. “A sociedade é extremamente consumista, e o sintoma mais importante é a ‘coisificação’ do outro. Eu tenho coisas, adquiro e descarto com facilidade e quando isso se tornou mais acessível, o ‘ter’ vai ser sempre o direcionador das minhas atitudes”, explica.
Bullying e maus-tratos
Sofrer bullying dos colegas na infância pode causar mais danos na saúde mental das vítimas do que os maus-tratos vindos dos adultos. O efeito único do bullying foi comprovado em um estudo publicado na revista científica Lancet Psychiatry, em abril. De acordo com a pesquisa, as crianças que sofriam apenas maus tratos dos adultos não apresentaram o mesmo risco de desenvolver ansiedade e depressão da mesma maneira que as crianças que também sofriam bullying entre os colegas.