Saúde e Bem-Estar

Infância consumista

Érika Busani
16/10/2005 22:17
erikab@gazetadopovo.com.br
É difícil passear no shopping e não ter vontade de sair com pelo menos uma sacolinha. Resistir à tentação da moda, da tecnologia, da indústria da beleza. Hoje tudo incita a comprar, somos bombardeados com novidades que rapidamente se transformam em “necessidade”. Se para adultos já é complicado identificar o que é realmente essencial, imagine para uma criança, seduzida pela propaganda, lançamentos constantes, o sanduíche e o chocolate – muitas vezes desprezados – que vêm com brinquedos e que, muitas vezes, são incentivados pelos pais.
“Os pais estão sem tempo e o sentimento de culpa por não poder dar a atenção que gostariam faz com que procurem compensar com presentes. Subliminarmente, estão dizendo: ‘Se eu gosto de você, vou te dar algo’. Muitas crianças têm tudo, mas afetivamente são carentes”, alerta a psicóloga Juliana Boff Aramayo Cruz, que trabalha em um colégio de Educação Infantil até o Ensino Médio.
Alguns podem não ver mal nenhum em levar diariamente um brinquedo ao filho. “Compensar a ausência com presentes é um erro que não deve ser cometido”, alerta Tatiana de Souza Centurion, psicóloga sistêmica familiar. “Os pais podem estar iniciando um hábito prejudicial não só para o filho, como para o relacionamento familiar. O pequeno cria uma dependência pelo presente e dá cada vez menos valor à imagem dos pais”, continua.
As conseqüências vão além da infância. “A criança passa a ter dificuldade em se apegar às coisas, perde a noção dos valores e não cria limites para seus desejos. Tudo fica descartável nas suas mãos, pois a todo momento é presenteada com algo novo – e sabe também que o novo rapidamente se tornará velho. Mal acostumada, poderá se tornar um adolescente agressivo e rebelde, sempre insatisfeito com o que tem”, afirma Tatiana.
Exclusão
Os colegas também têm grande influência sobre as crianças. “A sociedade é extremamente consumista. Aqueles que não têm o melhor tênis, da marca tal, ou se sentem excluídos ou o grupo exclui”, conta Juliana. Nessas horas, a escola pode ser de grande ajuda. “Trabalhamos muito os aspectos humanos, o resgate de valores que estão se perdendo, o respeito às diferenças.”
Mas os pais não podem delegar essa responsabilidade. Na casa da anestesiologista Rosa Maria Costa Schaitza, de 43 anos, a mensagem é “você não precisa ser igual aos outros”. Mãe de Elvira Maria, 10, e Arthur, 8, ela procura mostrar aos filhos que é preciso ter equilíbrio. “Também não dá para criá-los totalmente fora dos padrões, mas mostramos que não precisam ter tudo”, conta. Para a médica, cabe aos pais mostrar alternativas às crianças. “Jogamos com eles jogos de tabuleiro, incentivamos a música, a leitura. Apostamos muito em atividades físicas. Quando eles eram pequenos iam muito na casa da minha mãe, que tem um jardim grande, acho que é isso que falta para as crianças hoje: um local para serem crianças.”