Saúde e Bem-Estar

Infância de plástico

Érika Busani
03/10/2005 00:46
A cena é comum: a criança chega no quarto cheio de brinquedos, vira caixas e mais caixas lotadas de bonecas ou carrinhos coloridos; dezenas de bichos de pelúcia; miudezas que teimam em se misturar aos quebra-cabeças; bolas de todos os tamanhos; utensílios domésticos em miniaturas; apitos e dentaduras ganhos nas festas superproduzidas a que compareceu. Ela olha, aperta alguns botões que produzem sons metálicos, ri de um gato que grita quando é apertado, tenta montar uma pilha de brinquedos enfeitados com personagens e… cansa de brincar.
“O que acontece com as crianças de hoje, que perdem rapidamente o interesse pelos brinquedos?” – perguntam-se os pais. “É o excesso de brinquedos. Com tanto estímulo, a criança vai perdendo a sensibilidade. É como alguém que só ouve música alta. Com o tempo, perde a sensibilidade para os sons mais baixos”, compara Mônika Lustosa, professora do Ensino Fundamental em uma escola de pedagogia Waldorf, que aposta em elementos da natureza para as crianças desenvolverem a fantasia, o convívio em grupo e o aprimoramento motor.
“Os brinquedos atuais também são muito ricos em detalhes, impedem a criança de criar em cima. Já uma pedrinha pode ser transformada, em sua fantasia, naquilo que ela necessita no momento: uma fruta, um cachorrinho ou um barco. Quanto mais simples e inacabado o brinquedo, mais possibilidades ele traz para a criança de desenvolver sua criatividade”, afirma. A terapeuta familiar Andréa Vismeck Costa concorda: “O que conta para a criança não é a coisa perfeita, e sim o que ela cria, a convivência com os amigos”.
Falando em convivência, a psicanalista Ana Claudia Navarro Lins, coordenadora de uma escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental, lembra da importância das brincadeiras que aproximam para que as crianças se respeitem e se conheçam. “Os pais devem pensar nos brinquedos que dão aos filhos, que não sejam sempre um convite para o brincar solitário.”
A psicóloga Andréa conta que muitos pais dão brinquedos caros mas – contra-senso dos contra-sensos – falam para o filho “não deixe o amigo pegar”.
“Os pais devem ser mais reflexivos na hora de dar brinquedos, escolher o desenho que a criança assiste. É preciso dizer não, esse desenho não é legal por tais motivos. As escolhas não devem ficar para as crianças, elas ficam com a ilusão de que podem decidir sobre sua educação. Os pais devem resgatar sua função”, diz Ana Claudia.
erikab@gazetadopovo.com.br