Saúde e Bem-Estar

Infância enclausurada

Érika Busani
09/10/2005 18:26
erikab@gazetadopovo.com.br
Paradoxal é a palavra usada pela pedagoga Laura Monte Serrat Barbosa, especialista em Psicologia Escolar e da Aprendizagem e mestre em Educação, para definir a educação que os pais dão hoje em dia. “De um lado, a criança não pode sair, é o medo de ser seqüestrada, assaltada, atropelada. De outro, dentro do espaço protegido, ela pode tudo.” O pequeno “dono da casa” decide o que assiste na tevê, o que come, seus horários.
Para Laura, essa “liberdade” ou ausência de limites deixa a criança tão insegura, que pode ter três tipos de reação. A primeira é ficar furiosa, descontrolada, agressiva. “Ela fica tirana não porque seja ruim, mas a insegurança a faz querer controlar tudo.” A segunda é paralisar: fica insegura, regredida – toma mamadeira com 7 anos, chupa chupeta com 5, é dependente em excesso, fica mais depressiva. Por último, pode ficar desatenta, hiperativa, sem condições de concentração. “É um enclausuramento em si mesma, um jeito de aprender a viver egoístico. Muitas vezes não podem brincar com os amigos porque o brinquedo é caro, os pais não querem que quebre. Em vez de aprender convivência, aprendem ‘só-vivência’”, define a pedagoga.
O pior é que muitos pais estendem o que ela chama de “só-vivência” à escola. “Eles dizem ‘meu filho é especial’, tem de levar caderno diferente, lanche diferente, celular para falar com ele a hora que desejar. Quando a criança briga com o amigo, liga para a mãe. Ela não aprende a lidar com o conflito.”
Esse enclausuramento interior é o reflexo da “prisão” física, do mundo atrás das grades, onde só o individualismo conta. “A preocupação exagerada com a segurança poda a criança na liberdade e até nas atitudes, ela perde a capacidade de criar. Situações que geram conflito fazem a criança crescer. Quanto mais dependentes emocionalmente, menos recursos terão depois para lidar com situações difíceis na vida”, lembra a psicóloga Fernanda Roche, especialista em Educação Infantil e coordenadora do Espaço de Desenvolvimento Criança em Foco.
Para Fernanda, até nas brincadeiras as crianças têm a liberdade cerceada. “Elas são dirigidas, há muitas tarefas desde muito cedo, uma série de exigências para ter um ambiente mais controlado.”
É claro que a violência existe e deve ser levada em conta, mas é preciso achar oportunidades para possibilitar maior liberdade às crianças. “A falta de segurança é um fator determinante, mas é relativo. Muitos pais usam isso como desculpa e preferem deixar seu filho em frente ao computador ou dentro de um shopping em vez de deixá-lo sujar a sua roupa no quintal”, critica a pedagoga Kathrin Jaster de Almeida, professora da Educação Infantil de uma escola da pedagogia Waldorf. “É preciso ter cuidado sim, mas sem neuroses. É importante que estejamos perto de nossos filhos e os deixemos ser crianças. Criança precisa brincar, é possível encontrar alternativas para isso, cada um dentro da sua realidade. Quando realmente queremos sempre damos um jeito”, finaliza.