Saúde e Bem-Estar

Infância sem proteção

Érika Busani
04/12/2006 01:02
erikab@gazetadopovo.com.br

Bárbara não assiste a novelas, não usa maquiagem nem roupas curtas demais, decotadas ou sapatos de salto. Ela tem 8 anos e o que seria normal até há bem pouco tempo atrás, hoje é exceção. “Quero que minha filha curta mesmo sua infância. Se a gente pula fases, depois fica mal resolvida”, afirma a mãe da menina, Cláudia Piantini, 42 anos.
O que Cláudia faz por Bárbara é proporcionar um tipo de proteção que está faltando à maioria das crianças brasileiras, que aparecem em uma pesquisa realizada pelo canal infantil a cabo Nickelodeon como as mais estressadas do mundo. Foram 2.800 entrevistados de 8 a 15 anos, das classes A, B e C, em 14 países – Argentina, Brasil, China, Dinamarca, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Japão, México, África do Sul, Suécia, Inglaterra e Estados Unidos.
Na nota para o quesito estresse, os brasileiros atingiram o índice 7 para uma média de 5,6. Na Indonésia, país que enfrenta males como o terrorismo e desastres naturais o número foi o mais baixo, 4,3.
Não que as crianças de lá não tenham problemas. Elas lideram itens como o medo da morte dos pais, com 100%, e do terrorismo ( 93%). Mas as brasileiras são as que mais temem por sua segurança, com 75%. E, um dado surpreendente: 87% das nossas crianças preocupam-se com o terrorismo. Nos EUA, sujeito a ataques, 57% sofrem com essa angústia.
Por que nossas crianças são tão vulneráveis ao medo? “Elas têm as questões da Indonésia e do Iraque acontecendo dentro do quarto delas, da sala da casa delas. E escutam comentários sobre a violência local, as notícias sobre o PCC”, comenta a psicóloga Lidia Aratangy, responsável pela análise dos dados da pesquisa no Brasil.
Para ela, é missão de todos proteger mais as crianças. A começar pelo culto à catástrofe presente tanto nas conversas dos adultos quanto nos meios de comunicação. “Todas as notícias têm várias facetas, mas o lado do mal é sempre exacerbado. Ninguém se lembra do herói, apenas do vilão. Vivemos um mito de que a bondade é óbvia e natural, só o maligno é mistério.” Outro espaço fundamental é a escola, que dá pouca importância ao fenômeno do bullying – a intimidação praticada por um aluno ou grupo contra outro. “A escola deve se transformar em um espaço de convivência ética”, opina.
E, claro, a família, que deveria ajudar a filtrar informações de tal maneira que as crianças pudessem entendê-los e absorvê-los.