Aos 14 anos, Fernanda* descobriu, após ser ridicularizada por algumas colegas da escola, um site com fotos suas dizendo ser garota de programa e quanto cobraria por seu “trabalho”. Henrique* tinha 13 quando sofreu inúmeras ameaças via e-mail e celular. Em 30 minutos foram dezenas de torpedos. Maria*, de 16 anos, teve suas imagens durante uma relação sexual divulgadas pela internet.
Fenômeno que já vinha preocupando educadores e pais, o bullying estendeu-se aos meios eletrônicos, propagando o comportamento de intimidação, humilhação, chantagem, discriminação, difamação e isolamento praticados por um grupo de crianças ou adolescentes contra um ou mais de seus colegas.
O assédio ocorre via Orkut, blogs, fotoblogs, MSN, torpedos, e-mail, mostrando uma faceta perversa da popularização dos novos meios de comunicação. “O grande desafio em relação ao cyberbullying é a falta de controle. São meios totalmente livres à invasão de privacidade. As pessoas vão gravando, salvando em suas máquinas, multiplicando… É um sistema extramamente rápido e de controle praticamente impossível”, lamenta o pediatra Aramis Lopes Neto, coordenador do estudo “Diga não ao Bullying: Programa de Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes”, realizado pela Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (Abrapia), no Rio de Janeiro.
Dos 5.870 alunos estrevistados pela pesquisa, 40,5% estavam diretamente envolvidos em bullying, como autores ou vítimas. “Em todo o mundo, os índices indicam que de 5% a 35% dos alunos estão envolvidos. No Brasil, realizamos pesquisa com 2 mil alunos de escolas públicas e privadas, da região de São José do Rio Preto (SP), encontrando 49% de envolvidos. Desses, 22% eram vítimas, 15% agressores, 12% vítimas agressoras – aquelas que sofrem e ao mesmo tempo reproduzem”, contabiliza a pedagoga Cleo Fante, autora do livro Fenômeno Bullying: Como Prevenir a Violência nas Escolas e Educar para a Paz. “Quanto ao cyberbullying, não existem estudos científicos que evidenciem os índices mundiais. O que se sabe é que na Inglaterra, a cada quatro meninas, uma é vítima, por meio de celular.”
Longe de ser apenas “brincadeira de criança” o comportamento pode trazer conseqüências graves também para a vida adulta. “Quem vivencia o bullying sente-se intimidado, amedrontado, impotente, isolado. O contínuo estresse desencadeia o surgimento de sintomas físicos e psicológicos (veja quadro na página 9). Esse processo prejudica a auto-estima da pessoa, podendo criar dificuldades em todas as áreas de sua vida, como na emancipação e autonomia, estabelecimento de vínculos de amizade e conjugal, prejuízo no desempenho acadêmico e profissional, conflitos nas relações familiares”, afirma a psicóloga Mariza Bregola de Carvalho, terapeuta de casais e famílias.
Engana-se quem acha que apenas as vítimas podem sofrer conseqüências danosas. “Os autores podem adotar comportamentos de risco, atitudes delinqüentes e acabar tornando-se adultos violentos”, alerta Lopes Neto. O problema é que, na maioria das vezes, os pais não reconhecem seus filhos como agressores, já que eles costumam ter auto-estima elevada, sentem-se valorizados por serem conhecidos e temidos. “Às vezes, os pais acham positivo que o filho tenha uma ascensão sobre o grupo, confundem com liderança”, conta o pediatra. “O princípio a se discutir é a melhora no relacionamento social dessa geração. Os adultos vivem um processo de competitividade, individualismo e pouca sensibilidade em relação ao próximo.”
* Nomes fictícios para preservar a identidade dos personagens.
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