Educar adolescentes sempre foi um desafio para os pais. E na atualidade a missão assume caráter ainda mais complexo. É preciso, além de lidar com aquela criança em corpo de adulto, enfrentar as mudanças do meio externo. A violência que assusta, a disponibilidade devastadora das drogas, um mundo de perigos a um clique de distância.
A pedagoga Marcia Salete de Souza Loro, 51 anos, e seu marido Algacir, 62, sentiram as mudanças na criação dos três filhos. Rodrigo tem 30 anos; Thiago, 28; e Lucas, 17. “Hoje há muita liberdade e pouco limite”, observa Marcia. A mãe, no entanto, conta que não teve problemas, nem mesmo com o caçula. “Acredito muito na criação que demos, com bons exemplos”. Lucas confirma: “Eles sempre me orientam, me mostram o que é certo e errado, sempre estão do meu lado”.
Ou seja, o mundo pode ter se transformado, mas o básico ainda vale. Uma relação próxima, com vínculo forte e monitoramento constante são os segredos para criar filhos equilibrados. Os tão falados – e muitas vezes esquecidos – limites são a base dessa receita. “Limites são atos de cuidado, que é fundamental para que haja saúde mental na vida humana”, diz a psicóloga, terapeuta de família e mediadora de conflitos Josete Cesarina Tulio.
O Viver Bem ouviu especialistas no assunto e elencou sete temas bastante presentes na vida de adolescentes e seus pais, numa espécie de revisão de como lidar com eles nos dias de hoje.
1 – Mudança: Não quero ir
Por alguma razão, é preciso mudar de escola. Ou de cidade. “O adolescente funciona em grupo. Ele tem de ser reconhecido dentro desse grupo, sua autoestima está vinculada à aceitação dos pares”, explica a terapeuta familiar Denise Kopp Zugman. Por isso é tão difícil para eles aceitarem mudanças. Além disso, lembra a psicóloga Tatiana Centurion, o jovem está passando por muitas alterações internas, tornando difícil lidar com mais uma.
Para a psicoterapeuta Elza Sbrissia Artigas, especialista em adolescentes, a resistência é própria do ser humano. “O adolescente pode se opor à mudança, mas ela vai fortalecê-lo para que enfrente outras dificuldades da vida.”
Caminhão de oportunidades
– “Fale sobre a mudança de forma positiva, o que ela trará de bom, os ganhos que seu filho vai ter”, indica Elza.
– Sempre que possível, ouça o desejo de seu filho. “Talvez ele não possa decidir, mas pode opinar em uma troca de escola ou casa, por exemplo. Os pais hoje têm dificuldade de escutar os filhos, acham que escutar pode representar perda de autoridade”, diz a psicóloga sistêmica familiar Tatiana de Souza Centurion.
– Quando a mudança é inevitável, cuidado para a culpa não paralisá-lo como pai. Não afrouxe os limites como forma de compensação.
– No caso de mudança de cidade, procure lugares onde seja mais fácil a socialização do filho, como um condomínio com outros jovens ou um clube social.
2 – Drogas, lícitas e ilícitas
Buscar o filho de 16 anos completamente embriagado em uma festa na casa de um amigo de infância, onde você achava que ele estava em segurança. Camila* passou por essa experiência e desabafa: “Me assustou muito. O sentimento é de impotência total”.
Esse trauma tem sido muito comum para pais de adolescentes. E as drogas lícitas, além de prejudiciais, podem ser o caminho para outras. “O adolescente pode começar na bebida e/ou cigarro e ir ampliando o ‘cardápio’”, alerta a terapeuta familiar Denise Kopp Zugman.
E hoje a facilidade, disponibilidade e preço tornaram as drogas muito mais acessíveis que antigamente. “O envolvimento com álcool e drogas é uma grande preocupação. É o reflexo de uma sociedade que quer prazer imediato e não tem resistência à frustração”, afirma a psicoterapeuta Elza Sbrissia Artigas. O diretor clínico do Hospital Cardiológico Costantini, Marcelo de Freitas Santos, conta que tem crescido o número de jovens com enfarte. “O álcool e as drogas são a principal causa”, alerta.
Receita preventiva
– Novamente, o monitoramento é essencial: sempre saber o que o filho está fazendo.
– Fique atento ao estado que o jovem chega em casa.
– Preste atenção nas companhias de seu filho. Adolescentes costumam se juntar por identificação. Se o seu filho anda com alguém que fuma maconha, por que ele está se identificando com esse amigo?
– Cuidado com o estereótipo do adolescente: ele come muito, dorme demais e é preguiçoso porque é adolescente ou por que está usando drogas? “Se os pais minimizam problemas, podem perder uma oportunidade de agir no início, quando teriam mais alcance”, diz Elza.
– Um relacionamento próximo também é profilático. “A droga entra muito no momento em que não conheço meu filho. Ele consegue comigo um canal para expressar seus sentimentos?”, indaga Elza.
– Com relação à bebida alcoólica, enfatize o autocontrole. “Achar que seu filho nunca vai experimentar bebida é ilusão. Dizer ‘não beba’ e tomar uma cervejinha é incoerente”, diz Tatiana. Por isso, ensinar a controlar a quantidade é um caminho mais seguro.
– Quanto às drogas, não tem negociação: não é preciso experimentar para saber que faz mal.
– Converse sobre o tema, não em tom repressivo, mas alerte para as consequências do uso de álcool e drogas. O melhor é abrir o jogo: se droga fosse ruim, ninguém usaria. Mas as consequências são terríveis. E o vício pode começar em poucas experiências.
3 – Me leva, mãe!
O ir e vir, que antes dependia apenas da maturidade dos filhos, hoje envolve questões como violência e trânsito. Também há o medo dos pais. “A afetividade é a mistura de dois elementos presentes nos vínculos: o amor e o medo de perder. A cada desejo de que o filho cresça e se torne autônomo e independente, existe um medo correspondente”, afirma a psicóloga, terapeuta de família e mediadora de conflitos Josete Cesarina Tulio.
A presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar, Denise Kopp Zugman, aponta outro problema: hoje há baixa regulação social. “Antigamente, se um vizinho visse seu filho fazendo algo errado, ia contar para você. Hoje ninguém se envolve, cada um cuida do seu ‘quadrado’”, afirma.
Por tudo isso, a tendência de muitos pais é superproteger suas crias. Mas não adianta apenas achar que no condomínio ou no shopping ele estará seguro. É preciso monitorar, ir soltando aos poucos. E soltar, por mais doloroso que seja, é necessário. “Quando ficam muito dependentes, os adolescentes se tornam passivos. Na primeira oportunidade que tiverem de se virar sozinhos, não vão dar conta”, alerta a psicóloga sistêmica familiar Tatiana de Souza Centurion.
Guia da autonomia
– Antes da primeira saída de ônibus ou a pé sozinho, faça o trajeto com seu filho, orientando-o sobre o melhor caminho e os riscos.
– A primeira vez apenas com amigos no shopping também exige esse cuidado. “Vá junto, mas fique distante, observando”, sugere Tatiana.
– Quando ele for a uma festa, se possível leve-o ou converse com quem vai levá-lo.
– Observe o ambiente, verifique se há segurança, se há bebidas alcoólicas.
– Saiba como e com quem ele vai voltar e estabeleça um horário.
– Converse com ele sobre os riscos envolvidos em cada situação.
– Seu filho pode correr riscos andando sozinho de ônibus ou a pé, mas lembre-se que ele vai se fortalecer.
4 – Ser pop a qualquer custo
O desejo de ser o mais conhecido dentro da escola é bastante forte entre os adolescentes. “E a internet vem contribuindo para isso”, afirma a psicóloga Tatiana Centurion. “É chato não ser conhecido”, confirma Juliana*, 14 anos. “Você quer que as pessoas te vejam com outros olhos”, continua.
Uma das formas que os adolescentes usam para atingir a tão sonhada popularidade, ainda que virtual, são os fakes. Eles montam perfis falsos nas rede sociais com o objetivo de ter o maior número possível de “amigos”. “Eles vivem no mundo da fantasia”, observa a psicóloga.
“Tem gente que faz absurdos para se tornar popular”, conta Juliana. Existe até comunidade no Orkut que mede o nível de popularidade do usuário.
Outro meio, mais real, é se aproximar de quem já conquistou a admiração dos colegas. “Tem gente que muda completamente para ficar amigo dos mais populares”, conta a menina. O que é um perigo. “Se o adolescente não consegue popularidade pelo lado bacana, vai pela transgressão”, alerta a terapeuta familiar Denise Kopp Zugman. As meninas correm o risco de tentar pela vulgaridade. Matar aulas e apelar para a bebida e as drogas são outros meios de ficar conhecido.
Em busca do pódium
– O adolescente precisa do grupo. Mostre para seu filho que nem todo mundo é amigo: há uma diferença entre ser popular e ter uma rede de amigos.
– Fortalecer a autoestima é um antídoto contra o desejo de popularidade a qualquer custo. É uma construção diária. Cuidado com críticas e ridicularizações. Dê a oportunidade a seu filho de fazer coisas sozinho, mesmo que não fiquem perfeitas.
– Lembre-se: “Filho nenhum é um problema. Ele tem um problema”, diz Denise. Ou seja, ele está, por exemplo, tendo problema com maconha, não é um maconheiro. “É importante separar o que ele faz do que ele é, senão cria um rótulo. Deixa de ser uma pessoa e vira um carimbo”, afirma a terapeuta. Perceba a diferença de se dirigir ao filho dizendo: “Por que você mentiu?” ao invés de: “Você é um mentiroso”.
5 – Web: Atração fatal
Um dos assuntos mais difíceis de tratar com os filhos ganhou mais um elemento: a onipresente e infinita internet. Com ela, os pais têm agora preocupações adicionais, como o perigo da exposição e o fácil acesso, 24 horas por dia, a todos os tipos de pornografia.
O cuidado deve ser redobrado com os pré-adolescentes. “A iniciação é como a pessoa vai pensar o que é sexo. Iniciar pela pornografia está longe do ideal. Há cenas que podem ficar como agressivas, nojentas. É preciso evitar que aconteça e, se acontecer, conversar sobre o assunto”, aconselha a psicoterapeuta Elza Artigas.
Mas nem tudo é ruim na atualidade. Elza lembra que o lado bom é que hoje os meninos costumam ter a primeira relação com namoradas ou ‘ficantes’, ao contrário de antigamente. “Mesmo que seja um ‘ficante’, existe alguma relação de amorosidade”, diz.
Menu de atitudes
– Limite o tempo que seu filho passa na internet.
– Mantenha sempre o computador em locais de circulação, como a sala da casa.
– Aprenda a usar a internet, os sites de relacionamento e de bate-papo.
– Programe as ferramentas de bate-papo para que as conversas sejam salvas automaticamente e acompanhe o histórico das páginas visitadas por seu filho.
– De novo, a relação próxima é a melhor solução: ter um canal aberto de diálogo permite que o filho procure os pais para esclarecer dúvidas.
– Não recrimine, oriente.
6 – Não me enche!
Eles querem se opor aos pais. E às vezes fazem isso de forma agressiva. “Os adolescentes experimentam um crescente sentimento de independência que os obriga a diferenciar-se dos adultos que até então eram seus modelos – para desconsolo dos pais e outros adultos próximos”, afirma a psicóloga Josete Tulio.
Mesmo assim, não é motivo para sair respondendo mal. Para a psicoterapeuta Elza Artigas, são quatro os motivos da reação agressiva dos adolescentes. O primeiro são os hormônios em ebulição e, com eles, todo o contexto familiar. Em alguns casos, a família também é mais agressiva, levando a uma resposta igual. Além disso, a sociedade está mais agressiva. E, por último, pesa a personalidade do adolescente.
Dizer não para os filhos ajuda a desenvolver o autocontrole e a lidar com frustrações. “Costumo dizer que adolescente é igual a dinossauro: tem a boca grande para reivindicar seus direitos, mas os braços curtos para fazer seus deveres”, brinca a terapeuta familiar Denise Zugman.
Quando a agressividade é exagerada, tem de ser investigada ou mesmo diagnosticada, alerta a psicóloga Tatiana Centurion. Pode ser sinal de algum outro problema.
No ringue
– Dar limites, dizer não, aumenta a capacidade dos filhos de lidar com frustrações.
– Preste atenção nas suas reações. Se você xinga no trânsito, é impaciente, ensina isso ao filho.
– Ensine seu filho a ser educado não apenas pela educação, mas para que entenda que o outro existe.
– Quando ele der uma resposta atravessada, converse, mostre que existem outros jeitos de resolver as coisas. Leve-o à reflexão: “Será que isso foi bacana?”
7 – Dá uma grana aí
Como os pais lidam com o fornecimento de dinheiro aos seus filhos vai além da questão de educação financeira. Dar tudo o que o filho quer é uma forma de superproteção e ensina que ele não precisará se esforçar. “O adolescente precisa aprender a conquistar o que quer”, diz a terapeuta familiar Denise Kopp Zugman.
Controle financeiro
– A mesada é a melhor forma de lidar com o assunto. Estabeleça uma determinada quantia e seu destino – se é para pegar o ônibus, lanchar e pequenos gastos pessoais, por exemplo.
– Monitore de perto o uso do dinheiro. Assim, fica mais difícil que o adolescente gaste com cigarros, bebidas ou drogas, por exemplo.
– Se ele quer algo novo, ensine-o a poupar para comprar.
Serviço
Denise Kopp Zugman (terepeuta familiar), fone (41) 3242-1846.
Elza Sbrissia Artigas (psicoterapeuta), fone (41) 3362-1722.
Josete Cesarina Tulio (psicóloga, terapeuta de família e mediadora de conflitos), fone (41) 3338-7770.
Tatiana de Souza Centurion (psicóloga sistêmica familiar), fone (41) 3019-9553.
* * * * * * * * * * * * * * * *
Interatividade
Quais problemas você enfrenta na educação do seu filho adolescente? Como lida com eles?
Escreva para leitor@gazetadopovo.com.br As cartas selecionadas serão publicadas na Coluna do Leitor.
Colunistas
Agenda
Animal


