Saúde e Bem-Estar
Se em países desenvolvidos a média de leitura per capita é de sete livros ao longo do ano, no Brasil este número está em 4,7, mas somente se incluirmos as obras indicadas pela escola. Do contrário, a conta não fecha dois livros por ano. Porém, reforçar a importância da leitura no desenvolvimento humano é bater em uma tecla já desgastada. A grande questão é entender como uma pessoa se torna leitora, de que estímulos ela precisa para sentir prazer na companhia dos livros, sem que isso se torne uma obrigação – tarefa que, tudo indica, deve começar dentro de casa.
Para Luciane Hagemeyer, professora de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental no Colégio Medianeira, leitores nascem primeiramente pelo exemplo. “A chance de pais leitores, ou que valorizam a leitura como prática social, formarem filhos leitores é muito maior”, garante Luciane, que em 2008 foi finalista do Prêmio Viva Leitura e hoje coordena a oficina Clube da Leitura, do colégio durante o período extracurricular.
Segundo ela, as crianças precisam aprender desde cedo a se reconhecer como leitoras, sendo orientadas a manter uma lista de interesses de leituras e identificar os gêneros e autores que preferem. “Estes estímulos podem fazer parte não só da proposta de uma boa escola, mas também devem ser cultivados em família”, opina. Esta também é a percepção da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil: enquanto 60% dos leitores entrevistados disseram que se habituaram a ver seus pais lendo, no caso dos não-leitores este número se inverte. 63% afirmaram nunca ou quase nunca terem presenciado isso em casa.
Se o exemplo de pais para filhos é mesmo importante, a tradutora e doutora em Comunicação Luciana Doneda está no caminho certo. Apaixonados por livros, ela e o marido têm uma biblioteca com cerca de 800 títulos, e já começaram a “inocular o vírus da leitura” – como se referia o bibliófilo José Mindlin – nos filhos Dora, de 4 anos, e Adriano, de apenas 1. “Desde bebês os dois se acostumaram a ter contato com obras infantis. No quarto deles, montei uma pequena biblioteca que hoje tem em torno de 150 volumes, mas na estante da sala eles também têm espaço na prateleira mais baixa, onde conseguem alcançar”, conta a mãe. Dora ainda não sabe ler, mas adora folhear as páginas, e isso inclui os livros dos adultos, que não têm ilustrações coloridas. “Ela finge que está lendo e vai inventando enredos. Dora é muito criativa, quando começa a fazer o seu ‘teatro’, misturando histórias da Branca de Neve com o Pinóquio. A família toda senta para ouvi-la contar”. Apesar do contato intenso com livros em casa, Luciana matriculou Dora em uma escola Waldorf. Na explicação da tradutora, esta linha pedagógica privilegia a cultura oral da contação de histórias, da música e do teatro, colocando a criança em contato com pensamentos e ideias mais abstratas do que concretas. “Não há um incentivo ao consumo e ao discurso dos personagens de desenhos animados, por exemplo, o que deixa a criança livre para criar seu próprio discurso”, diz.
Para Luciane Hagemeyer, é preciso oferecer não apenas os livros, mas estar disposto a ler para as crianças, se possível todos os dias. “Existem duas formas de uma história entrar para a nossa vida: pelos olhos (lendo) e pelos ouvidos. Além de ler para a criança, é importante conversar com ela, procurando encontrar pontos em comum entre o que foi lido e já vivido. Desse modo, os livros podem se tornar um canal aberto de comunicação entre pais e filhos, alunos e educadores”, conclui.
Incentivo na escola
Nem todos têm o privilégio de conviver com livros em casa desde cedo. Rogério Pereira, editor do jornal de literatura Rascunho e hoje dono de um acervo com aproximadamente 12 mil obras, conta que seus pais, de origem simples e sem estudos, não tinham o hábito de ler. “Na minha casa o único livro que existia era a Bíblia. Eu só fui começar a me interessar por literatura na escola, com 15, 16 anos. Por conta disso, não li Monteiro Lobato e os clássicos infanto-juvenis, comecei direto com autores como Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, João Antônio”, lembra. Hoje, Pereira faz o trajeto de volta ao apresentar à sua filha Sofia, 3 anos, aqueles clássicos que não pôde ler na infância. Em sua opinião, os caminhos para a formação de leitores são diversos, mas geralmente passam pelo ambiente doméstico ou pela escola, embora o jornalista não acredite que a atual rotina escolar estimule a leitura e faça com que os jovens de fato se interessem por ela.
Luciane Hagemeyer também percebe que, de um modo geral, as escolas fazem pouco pelos leitores. “Na teoria, nenhum educador vai dizer que não valoriza a leitura. Mas a verdade é que a escola não ensina a manusear os livros, principalmente os literários. A natureza do texto literário é algo meio obscuro ao educador. Na maioria das vezes o que se faz é uma lista de perguntas após a leitura, para ver se a criança compreendeu bem o texto. Ou seja, ela só precisa reproduzi-lo, enquanto o ideal seria ensiná-la a pensar a partir do texto”, constata a professora. Para ela, muitos educadores não conhecem os livros, estão por fora dos lançamentos editorias, não vão à biblioteca e não leem obras infanto-juvenis. “Não se pode ensinar aquilo que não se conhece”, afirma.
Tempo e dinheiro
Segundo o jornalista e empresário Rogério Pereira, há dois argumentos recorrentes que costumam afastar as pessoas da leitura: a falta de tempo e de dinheiro para comprar livros.
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