Saúde e Bem-Estar

Meninos à prova de machismo

Larissa Jedyn - larissa@gazetadopovo.com.br
14/09/2008 03:05
Com as mudanças nas relações sociais, de trabalho e de poder acontecidas no século 20, os homens viram-se em uma outra posição. Eles também podem ter momentos de fragilidade, incerteza, passar por perrengues financeiros e aceitar a ajuda da companheira…
Mas quem tem filhos neste momento sente na pele as conseqüências e incertezas dos novos tempos. E pior, se bate para criar as crianças dentro nos novos padrões, tendo os antigos como referência e um futuro nebuloso pela frente. A psicóloga e psicopedagoga Úrsula Marianne Simons aponta um dos problemas: se antes os filhos homens só faziam reproduzir o papel dos pais, hoje este papel não é tão claro, o que gera insegurança nos meninos. “Na primeira infância (até os sete anos), os meninos são ligados à mãe, que acolhe, atende. Na segunda (até os 14 anos), voltam-se para os pais, querem identificar-se com eles. Depois dos 14, se separam dos dois e criam seu próprio papel. Se a identificação anterior foi bem feita, ele não terá dificuldades em assumir o seu papel. Se pai e filho tiveram uma boa relação, conversaram bastante, essa criança terá um bom repertório. E não importa que ele tenha brincado de casinha ou de boneca. A masculinidade não está nesses estereótipos externos”, diz ela.
Lidar com as emoções também faz parte deste processo. Chorar e sentir raiva são coisas naturais, o que é preciso é ajudar o menino a elaborar e não a engolir o sentimento ou sair esmurrando alguém na rua. A advogada Ana Paula Magalhães conta que muita conversa foi o jeito que encontrou para ajudar o filho Eduardo, de 11 anos, a reconhecer as emoções, falar sobre elas, expressar-se e se conhecer melhor. “Percebo que ele tem uma personalidade introspectiva. Houve uma vez, depois do rompimento com um amigo, que percebi que ele estava triste, incomodado, sofrendo, no limite. Começamos a conversar e ele chorou, falou sobre o que aconteceu, elaborou a tristeza. Depois ele me olhou surpreso e disse que o choro tinha ajudado, que ele ficou mais leve, a situação ficou mais fácil. Ele não sabia o que fazer com aquela carga toda. Só que dias depois, quando fui perguntar sobre como estavam as coisas, ele já foi dizendo: ‘Mãe, me deixa!’”, lembra ela.
Para a mãe, Eduardo está vivendo uma fase de transição, procurando uma maior convivência com o pai, com o referencial masculino. “Quando ele chega falando bobagens, escatologias, aviso que isso pertence ao mundo dos homens e que eu não acho graça. Do mesmo jeito que quando ele vem reclamando que a amiguinha com quem joga futebol – e por isso ele diz que ela ‘é menino’ – está quieta, cheia de ‘não-me-toques’, eu digo que mulher é assim mesmo ”, brinca.
Secando as lágrimas
De forma geral, a sociedade espera das pessoas uma segurança emocional que elas normalmente não têm. “De um lado a família diz chore à vontade que isso é natural, mas as pessoas em volta não aceitam e – pior – rejeitam. Saímos do machismo absoluto para um outro extremo em que tudo é possível, o que ajudou a criar homens frágeis emocionalmente”, comenta o educador e psicólogo Marcos Meier. Para ele, duas coisas são fundamentais para o amadurecimento emocional de uma criança. Uma é a resistência à frustração: se o seu filho quebrou um carrinho, não substitua rápido o brinquedo; deixe-o chorar, acolha seus sentimentos, mas aproveite para dizer que a perda dói, mas que ele vai sobreviver sem o carrinho. Isso evita que a criança entenda o choro como mecanismo de manobra, sedução e chantagem.
A outra é o adiamento da satisfação: “Estamos criando pessoas focadas no prazer, na satisfação momentânea. É o ficar antes de namorar, é o ganhar presente antes do aniversário. Até mesmo as crianças precisam entender que antes vem o trabalho e depois o salário, antes vem a refeição e depois a sobremesa, antes vem o estudo e depois o passeio”.
Meier ainda ressalta que a maturidade da criança depende da sua relação com os pais. “Virou moda entre os pais dizer que não tem quantidade de tempo para o filho, mas qualidade. Isso não é verdade. Você precisa de tempo para estar inteiro com o seu filho, sair com cada um de uma vez, escutar o que ele tem a dizer. Isso é se dedicar ao seu filho.”
Ou seja, a presença dos pais ajuda a criança a construir sua segurança e a definir seu papel. Meier ainda lembra que os pais não devem se preocupar quando o filho homem se envolver com brincadeiras de meninas. A dica é agir com naturalidade. “Não se preocupe com a vontade do seu filho de brincar de boneca. Sente com ele, brinque e mostre que o papai, que é homem, também pode brincar de boneca. Se um dia alguém disser que isso não é coisa de menino, ele vai lembrar do pai que é homem brinca, portanto, não há problema nisso. A proibição é que pode causar confusão na cabeçada criança”, diz o educador, que em casa põe os filhos para ajudar a lavar louça: “Vou com os dois meninos, lavamos a louça e falamos coisas de homens, com jeito de homens”.
Finalmente, ele observa que a personalidade também pode conduzir o modo como as crianças lidam com as emoções. “Alguns meninos são mais sensíveis, mais carinhosos, outros mais soltos e isso não tem nenhuma relação com sexualidade. Se um menino sabe ouvir as meninas, ele já vai ter poupado um grande trabalho para o futuro”, brinca. (LJ)
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Serviço
Marcos Meier, educador e psicólogo, site www.marcosmeier.com.br
Úrsula Marianne Simons, pscicóloga e psicopedagoga, fone (41) 3338-8223.