Na música “8 anos” – que ficou conhecida na voz de Adriana Calcanhoto – a cantora e compositora Paula Toller relaciona as perguntas feitas por seu filho Gabriel. São 25, mas certamente ele fez outras tantas desde pequeno. E se anotássemos todos os questionamentos de nossos filhos seriam, provavelmente, “mil trilhões vezes infinito”.
É entre os 3 e 4 anos que começam os “porquês”, que parecem não ter fim. “É um tempo muito importante do desenvolvimento da criança. Ela está começando a construir teorias a respeito do mundo, tenta explicá-lo a partir de seu referencial, organizar essa raciocínio egocêntrico e compreender as experiências com as quais se confronta”, explica a psicanalista Rosa Maria Mariotto, professora do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
“A criança quer respostas para os grandes enigmas da humanidade, a origem das coisas. E sua forma de buscar essas respostas é fazendo perguntas que parecem bobas, mas são filosóficas. Toda criança pensa nesses assuntos, algumas se expressam mais, outras menos”, diz a psicóloga e psicanalista Maria Augusta de Mendonça Guimarães, da Associação Serpiá.
Muitas vezes, os pais se irritam com tantas perguntas, mas vale a pena parar um pouquinho, prestar atenção no pequeno e responder. “A primeira percepção de mundo das crianças se dá através da interpretação que os pais dão para ela. Não se pode deixá-las à deriva, sem referências e sem palavras suficientes para construir suas teorias sobre o mundo”, adverte Rosa Maria.
Dar atenção a essas questões também contribui para não acabar com a vontade de aprender. “Elas alimentam a curiosidade, depois se tornam adolescentes que vão sempre querer saber porque, ter idéias novas”, afirma a pedagoga Laura Monte Serrat Barbosa, psicopedagoga e mestre em Educação. Ela alerta que a curiosidade e a iniciativa são podadas quando se manda a criança ficar quieta na hora em que ela quer perguntar. “Ela percebe que aquilo incomoda e não pergunta mais.”
O diálogo entre pais e filhos também pode ser afetado na adolescência. “Muitos pais de adolescentes reclamam que seus filhos não conversam com eles. Se eles não tiverem paciência nessa fase de perguntas, a criança acaba indo procurar as respostas em outros lugares, criando um afastamento”, lembra Maria Augusta de Mendonça Guimarães. “Pode ser que os pais fiquem felizes porque a criança não está mais incomodando, mas em termos de vínculo, não é legal.”
Dedicar um pouco de tempo e atenção à criança é fundamental. “O tempo da criança é subjetivo, diferente do adulto. É preciso ter essa disponibilidade de acompanhar esse tempo de infância”, diz Rosa Maria.
erikab@gazetadopovo.com.br
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