Saúde e Bem-Estar
Imagine duas crianças de idade semelhante. Enquanto uma já repetiu o ano escolar duas vezes, corre de um lado para o outro, escala móveis, atropela as pessoas, bate na irmãzinha, mostra a língua para quem a olha de cara feia e maltrata o cachorro, a outra é calma, não tem problemas na escola, vive suspirando, distraída e sonhando acordada. Quem você diria que é o portador de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)? Pois acertou quem apostou nas duas. Ambas têm sintomas que podem caracterizar o transtorno.
Desatenção, impulsividade e hiperatividade são os sintomas mais característicos do TDAH, relatados desde o século 19. Mas foi somente na década de 80 que as crianças passaram a ser diagnosticadas com esse transtorno específico, decorrente de anomalias que interferem na produção dos neurotransmissores dopamina e noradrenalina no cérebro. Pouco a pouco, o termo se disseminou e hoje é comum chamar qualquer criança agitada de hiperativa.
É claro que desatento, inquieto e impulsivo todo mundo é um pouco. E por isso há a necessidade de avaliação de um especialista, seja ele um neuropediatra ou psiquiatra infantil. A pessoa com TDAH tem essas características acentuadas, o que chega a atrapalhar o seu dia a dia. “As crianças com TDAH costumam resistir a regras, não automatizam rotinas pré-estabelecidas, esquecem conteúdos e tarefas e deixam para a última hora o trabalho que devem realizar.”, explica o neuropediatra Clay Brites. A mãe geralmente reclama que seu filho não persiste na atividade de tarefa, tem preguiça de escrever ou ler, erra ou esquece detalhes e necessita ser lembrado todos os dias de suas obrigações e rotinas. Muitos dos portadores mexem-se frequentemente, incomodam o ambiente e falham quando precisam ficar calados ou imóveis. “Desde a infância é possível identificar sinais e sintomas que ajudam os pais, professores e profissionais de saúde a chegar ao diagnóstico”, diz Clay.
Foi este conhecimento que faltou quando a pedagoga Maria Cristina Bromberg, mestre em Distúrbios do Desenvolvimento, levou o filho ao médico, 38 anos atrás. “Quando ele tinha um ano e meio, era muito agitado e não dormia, então o levei ao médico. Ele me disse a famosa frase que ainda hoje é ouvida pelos pais: ‘Seu filho não tem nada, a senhora é que é ansiosa’. Antes, simplesmente não existia TDAH, mas ainda hoje esse é um transtorno pouco conhecido”, afirma.
Segundo o neurologista infantil Antônio Carlos de Farias, mestre em neurociência, apenas 50% das crianças que o procuram para o diagnóstico de TDAH realmente têm o transtorno. “Os outros têm alguma deficiência mental, transtornos como o bipolar, hipertireoidismo, ou estão dentro da normalidade.” Ele explica que outras patologias também podem ter os mesmos sintomas do TDAH e que a própria idade precisa ser levada em conta, antes de considerar o transtorno. “Aos 4 ou 5 anos, a criança parece desatenta, mas é porque o cérebro está dentro de um cronograma de amadurecimento”, diz.
Descoberta
A DJ Tatiane Bittencourt, 29 anos, esperou bastante tempo até que seu filho Luan, 9 anos, recebesse o diagnóstico de TDAH. Sempre agitado, enquanto a professora explicava a aula, o garoto cobria as folhas do caderno com desenhos e tinha muita dificuldade em aceitar regras. “Sofríamos um preconceito enorme. Em reuniões familiares ele não parava quieto e os tios chamavam a atenção dele o tempo todo, tratando-o como uma criança mal educada”, conta. Mesmo contrariando as professoras da escola de Luan – que diziam que não existia hiperatividade – Tatiane levou o filho ao médico, fez testes visuais e auditivos e sofreu até que ele fosse diagnosticado. A segunda escola também não sabia lidar com ele. Tinha a atenção chamada, chegando a ficar de castigo na frente dos outros colegas. “Ele entrou em depressão e não queria sair do quarto”, conta Tatiane.
A mãe conseguiu com o neuropediatra a indicação de escolas preparadas para atender crianças com TDAH e hoje a história é outra. “O Luan adora ir para a aula. Lá faz as provas em separado para não se distrair e senta na primeira carteira. É o ajudante da professora. Sempre que ela nota que ele está agitado, pede para que vá buscar uma caneta, giz, papel, e ele volta pronto para se concentrar novamente”, diz.
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